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Giovanna Tardelli

Política e saúde mental: a urgência da salvação coletiva

15 de Maio de 2026 às 21:15
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: REPRODUÇÃO)

Indubitavelmente o Brasil já existia antes dos portugueses e há evidências de que a vida humana existe por aqui há 12 mil anos. Seus povos viviam de forma autossuficiente, as tribos indígenas eram espalhadas e cada uma tinha seu modo de viver e se organizar. Não só após a colonização em 1500 aliás violenta — guerras já ocorriam, por terras ou rios, inclusive guerras santas muitos acreditavam numa terra prometida, na Terra Sem Mal. Guerreavam com flechas, fogo e até armas químicas. Uma prática comum era a antropofagia: após vitória, realizavam rituais para humilhar e até homenagear o inimigo, o ingerindo a fim de obter sua força e valentia. Certamente, os portugueses se aproveitaram destas rivalidades.

A questão é que não é de hoje que o povo que aqui habita, já explorado de diversas formas e de dinâmica complexa, frequentemente encontra inimigos entre si, rivaliza e, talvez, busque algo para além de um líder, quiçá um salvador. Historicamente atravessados por um sebastianismo, estamos a cada eleição pronunciando: “Agora vai!” Nos últimos anos, em especial nas eleições para presidência de 2022, questões políticas têm trajado a nação com rivalidade e hostilidade, em clima combate. Ataques raivosos aos “inimigos” o tempo todo, confusão entre notícias verdadeiras e fake news, criaram uma atmosfera estressante, brigas, afastamento entre familiares e amigos, o que, inclusive, levou ao aumento dos casos de ansiedade e depressão no período.

Uma reflexão interessante é: por que escolhemos os líderes que escolhemos e por que os defendemos com unhas e dentes, custando-nos muitas vezes relações que nos são caras? Será que escolhemos de fato por um saber? Ou por questões que nos passam desapercebidas? De um ponto de vista psicanalítico, podemos dizer que projetamos muitas coisas nestes líderes. Ou seja, a partir do pressuposto que não os conhecemos de verdade e que seria ingênuo acreditar que tudo o que dizem e prometem é verdade, nós preenchemos lacunas dessas partes desconhecidas com nossos ideais.

É muito comum que projetemos nossas primeiras grandes referências (mãe, pai, cuidadores etc). A partir desta conscientização de que eles não são quem imaginamos ser, vale questionar: O que quero deste político? Salvação? Se sim, de quê? Preciso de alguém que cuide dos frágeis? Ou preciso de alguém que seja mais firme e bote ordem na bagunça?

É claro que buscamos um representante competente. Porém, já tivemos tempo o suficiente para saber que não basta escolher simplesmente porque alguém falou que este ou aquele é melhor ou porque eu fiz um “uni, duni, tê” e me afeiçoei com o candidato x, y ou z. Aqui cabe bem explorar o “efeito Dunning-Kruger”, no qual, explicando de forma sintética, um indivíduo que desconhece sua ignorância sobre um determinado tema acaba por acreditar que sabe muito sobre o mesmo e, em contrapartida, alguém que tem um vasto conhecimento sobre um assunto, por compreender a grandiosidade do tema, subestima sua capacidade e conhecimento. Ou seja, quanto maior a confiança nos próprios julgamentos, menor o conhecimento sobre o tema. Como isso nos ajuda? Nas próximas eleições questione-se sobre dois aspectos: o quanto você sabe e o quanto o seu suposto “adversário” sabe.

É perceptível o quanto pessoas com visão política extremista acabam levando um ponto de vista oposto como ofensa pessoal. Será que o outro com visão oposta à sua sabe tanto assim mesmo? E se sua convicção é tão grande, não seria hora de começar a questionar o quanto sabe sobre política? Será que um pedaço de si vai embora se não “tiver razão” e o “inimigo” o devorará? Ou há uma força tão grande e medonha no “adversário” que quer destruí-lo e ingerir, fagocitar para fazer parte de si?

Bom, podemos ver que existem ainda algumas semelhanças do Brasil de 1500 com o Brasil de 2026, até porque nosso cérebro de fato não teve tempo para “atualizações” desde lá, mantendo as necessidades mais básicas de sobrevivência. Além disso, apesar de mudanças tecnológicas, alguns aspectos culturais também permaneceram: buscamos um líder ou salvador, assim como um sentimento de pertencimento.

Também, num país instável política e economicamente, é difícil que não haja uma população ansiosa. Quanto maior a angústia, maior as chances de uma pessoa apoiar ideologias extremas e acreditar em teorias da conspiração (mesmo que sejam necessárias distorções da realidade), pois estas geram uma ilusão de controle.

Então, além de realizar as reflexões supracitadas, como podemos vivenciar um ano eleitoral com menos desunião, rivalidade e estresse do povo brasileiro e mais saúde mental? Em primeiro lugar, é de suma relevância praticar a tolerância: nunca haverá um ser na história do planeta terra que pense de fato da mesma forma. Outro ponto é evitar o viés de confirmação, ou seja, supervalorizar evidências favoráveis ao seu lado, ignorando evidências que favoreçam o lado do ponto de vista oposto do seu.

Uma autoavaliação é sempre bem-vinda: observe os sentimentos e suas reações quando alguém diz algo contrário ao que crê, observe se você sempre quer estar certo ou não (esta tarefa não é fácil, mas necessária). Aproveite para exercitar, também, ver os pontos em comum de sua opinião e de outras pessoas que pensam diferente. É válido dar pausas das notícias e saber que tentar prever o futuro não vai mudá-lo, você já está fazendo a sua parte ao votar.

Caso seu nível de estresse esteja muito alto, se este tema estiver afetando suas relações pessoais, sejam familiares ou de amizades, ou relações no trabalho, procure ajuda profissional.

Giovanna Tardelli é psicanalista e especialista em neurociência e comportamento (PUR-RS).

Nota de Redação: A foto que ilustra este artigo retrata a Batalha de Alcácer-Quibir (1578), que tempos mais tarde deu origem ao sebastianismo, mito messiânico português baseado na crença de que o Rei Dom Sebastião, desaparecido na batalha, retornaria um dia, “numa manhã de nevoeiro”, para salvar Portugal de suas crises e restaurar sua glória.