Buscar no Cruzeiro

Buscar

Vanderlei Testa

Ombro amigo da mãe

09 de Maio de 2026 às 18:15
Cruzeiro do Sul [email protected]
.
. (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Há uma série chinesa de grande sucesso cujo título, em português, soa como um convite delicado: “Ombro Amigo”. Uma história de amor jovem, leve, que conquista milhões de corações. Ao lembrar desse título, veio-me também à memória a canção de Fagner, tão presente em nossa cultura: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”. Duas expressões artísticas, de universos distintos, que se encontram no mesmo gesto de acolhimento.

O ombro — à primeira vista apenas uma parte do corpo humano — revela, quando olhado com mais atenção, uma complexidade admirável. Formado pela união de ossos como a clavícula, a escápula e o úmero, ele é sustentado por músculos, tendões e ligamentos que permitem movimentos amplos e delicados. É graças ao ombro que abraçamos, acolhemos, erguemos, carregamos e também nos apoiamos. Sua mobilidade é uma das maiores do corpo humano, e talvez por isso mesmo ele se torne símbolo de liberdade e entrega, em especial, quando as mães carregam os bebês.

Mas há algo que a anatomia não descreve fisicamente: o significado do ombro na vida afetiva. Ele não é apenas estrutura — é presença. Não é apenas articulação — é abrigo. O mesmo ombro que sustenta o peso físico também acolhe o peso das emoções, e o aconchego materno.

Este texto nasce da contemplação desse “ombro amigo” em diferentes momentos da vida. Em um velório recente, diante da despedida de uma mãe querida, o ombro amigo dos filhos se fez presença silenciosa. No abraço apertado, ele acolheu lágrimas, saudades e palavras que não conseguiam ser ditas. Ali, o ombro tornou-se linguagem — uma forma de dizer “estou aqui” quando tudo parece faltar.

Em outras ocasiões em viagem, vi o ombro transformar-se em repouso. Em um voo longo, a mãe idosa ao lado oferecia, sem palavras, apoio para o sono de uma jovem que viajava na poltrona ao lado. Um gesto simples, quase involuntário, mas carregado de ternura. Um travesseiro humano, aquecido pela confiança.

Quantas vezes também presenciamos mães e avós, sentados em seus lares, com os ombros disponíveis para filhos e netos? Cenas de afeto cotidiano que poderiam facilmente ganhar as telas do cinema. O ombro amigo está ali, gratuito, discreto, sempre pronto — basta perceber.

E mesmo quando não é físico, o ombro existe. Sacerdotes oferecem esse apoio na escuta generosa das dores da alma. Voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) emprestam seus “ombros invisíveis” a quem precisa desabafar, muitas vezes em meio ao silêncio do sofrimento. São também ombros aqueles que se estendem nas instituições sociais, nos asilos, nos abrigos e nos trabalhos dedicados aos mais frágeis — como o Serviço de Obras Sociais de Sorocaba (SOS), onde o cuidado se transforma em gesto concreto de amor.

A canção eternizada por Fagner nos recorda:

“Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora,

conta logo a tua mágoa toda para mim...”

É um chamado à partilha da dor, à presença fiel que não abandona.

Fica, assim, uma reflexão simples e necessária: mesmo que o ombro adoeça, se fragilize ou se imobilize, ele jamais perde sua vocação de acolher. Porque o verdadeiro ombro amigo da mãe não depende apenas da força do corpo, mas da grandeza do coração.

E talvez seja esse o maior sentido de tudo: sermos, uns para os outros, o ombro onde a vida pode descansar — ainda que por um instante — e seguir em frente.

Dê um beijo no ombro da sua mãe!

Vanderlei Testa é jornalista e escritor.