Renato de Oliveira Camargo Junior
Plante hoje seu futuro
Houve um tempo em que a maioria das pessoas morava no campo e extraía da prática da plantação as principais lições para viver. Dentre elas, a de que, se queriam alguma coisa, deveriam plantar, regar e esperar, para depois colher.
Atualmente, a maioria de nós mora nas cidades e acaba extraindo do uso da tecnologia suas principais crenças e convicções. Dentre elas, a ideia de que, se desejamos alguma coisa, não precisamos plantar, nem regar, nem esperar, nem colher. Basta apertar um botão para receber.
Nesse novo contexto, tem se consolidado a ideia de que praticamente tudo está a apenas um clique de distância. Se queremos comida, clicamos no iFood e, em poucos minutos, ela aparece quentinha à porta de casa. Se queremos direção, clicamos no Waze e encontramos as melhores rotas para o nosso destino. Se queremos entretenimento, clicamos no YouTube e encontramos uma infinidade de músicas, filmes e podcasts. Se queremos companhia, clicamos no Instagram e encontramos um monte de gente disponível para conversar.
Essa nova dinâmica tem gerado um imediatismo muito perigoso. Afinal de contas, amizade, sabedoria, paciência, confiança, intimidade, autoridade, reputação, resiliência e uma série de outras virtudes não se obtêm de uma hora para outra. Elas demandam investimento, dedicação e um processo que pode levar anos. E isso, além de ser angustiante, tem nos levado a crer que o mundo, por vezes, está conspirando contra nós, deixando de nos entregar aquilo que deveria, no tempo em que gostaríamos de receber.
Nas antigas páginas da Bíblia, encontramos um conceito muito interessante que corrige muitas dessas percepções equivocadas e nos habilita a uma postura mais responsável diante dos desafios da vida. Esse conceito tem sido chamado de lei da semeadura:
Gênesis 8:22 diz: “Enquanto durar a terra, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais cessarão.”
Eclesiastes 11:6 diz: “Plante de manhã a sua semente e, mesmo à tarde, não deixe descansar a sua mão, pois você não sabe qual dará certo, se esta ou aquela, ou se ambas serão igualmente boas.”
Gálatas 6:7-8 diz: “Pois o que o homem semear isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna.”
Salmos 126:5-6 diz: “Aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão. Aquele que sai chorando enquanto lança a semente voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes.”
A lei da semeadura não tem por objetivo ensinar que tudo na vida depende de nós, como se não houvesse um Deus gracioso nos céus, mas afirmar que a graça de Deus não exime a responsabilidade humana. Se precisamos de algo, devemos orar, clamando pela intervenção divina. Na sequência, devemos trabalhar, fazendo tudo o que está ao nosso alcance para lograr aquilo que tanto almejamos. Richard Foster, em seu livro “A celebração da disciplina”, reforça essa ideia ao afirmar que o esforço não se opõe à graça, mas ao mérito.
Você tem semeado na direção das suas necessidades? Tem lançado sementes para um casamento bem-sucedido? Tem investido de forma significativa na educação de seus filhos? Tem dedicado tempo e esforço à sua formação profissional? Tem procurado nutrir relacionamentos para colher amizades mais profundas e duradouras? Tem cuidado do seu corpo de maneira responsável para obter saúde e longevidade?
Num mundo complexo como o nosso, nem todo aquele que planta colhe — mas quem não planta não tem nem mesmo o que esperar.
Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.