Celso Ming
Ajuda aos endividados
Vem aí um desaperto para os apertados em dívidas, promete o governo. É outra medida de natureza eleitoral, que tem lá suas vantagens, mas carrega custos importantes.
Certos números dão boa ideia do problema. O endividamento alcançou em março 80,4% das famílias brasileiras, o mais alto nível desde que a Confederação Nacional do Comércio começou a medir esse item da economia. É uma situação que compromete 29,6% da renda das famílias.
Não é preciso buscar argumentos mais profundos para saber que essa é uma situação que acarreta várias consequências adversas: limita o consumo e o investimento e, nessas condições, vira barreira para o avanço do comércio e do PIB; se levar à inadimplência, tira o sono de chefes de família, leva ao risco de sujar o nome do responsável na praça e de complicar ainda mais a vida econômica das pessoas... e por aí vai.
De olho no resultado das eleições de outubro, o presidente Lula quer produzir um alívio geral no bolso do consumidor, mais ou menos nos moldes do programa Desenrola Brasil.
Esse alívio traz vantagens no curto prazo. Adia o enforcamento financeiro do devedor e ajuda a aumentar o consumo.
Mas produz custos e tem limitações que não podem ser ignorados. É suavização do endividamento, com mais endividamento. A dívida poderá ter condições renegociadas, especialmente em relação ao prazo, numa situação de juro alto, ainda que o governo arranque um descontinho do credor. A longo prazo, só ajudará se o devedor conseguir renda mais alta.
Do ponto de vista macroeconômico, esse alívio engrena consequências. Trabalha contra a política de juros do Banco Central que pretende controlar o crédito para reduzir a inflação. Isso significa que o Copom poderá ter de manter os juros lá em cima por mais tempo, o que também prejudica o devedor.
Na medida em que premia o endividado e descarrega os custos fiscais para o resto da sociedade, o governo estará desestimulando o bom pagador, quando deveria produzir efeito contrário. Além disso, em vez de puxar pelo aumento da poupança e do investimento, o governo está dando mais força ao consumo. Menos investimento, por sua vez, implica crescimento econômico futuro mais baixo.
No Brasil prevalece uma anomalia que acaba sendo ampliada com um programa desses. É a cultura do pague em até 5, 10 ou mais vezes “sem juros”. Essa é uma mentira comercial que viciou o brasileiro comum. Se a loja estica o pagamento por várias prestações sem acréscimo no preço é porque já embutiu os juros no preço à vista. Essa é a principal razão porque o mais importante retorno dos varejistas não é o lucro operacional, mas o lucro financeiro. Atuam mais como banqueiros do que como comerciantes.
Voltando para a situação do devedor, se ele gasta mais em consumo, fica faltando dinheiro para o investimento e para outras despesas da família.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.