Carlos Pinto Neto
Renato Mascarenhas: O arquiteto da modernização política e educacional de Sorocaba
Sorocaba, nas primeiras décadas do século XX, viveu uma transformação profunda conduzida por homens que uniam o rigor do serviço jurídico à visão estratégica de liderança comunitária. No centro dessa engrenagem estava Renato Mascarenhas, figura cuja trajetória fundiu a tradição de suas raízes — como descendente direto do fundador Baltazar Fernandes — com a urgência de progresso que a cidade clamava.
A forja de um tabelião e o vínculo com a terra
A trajetória pública de Mascarenhas consolidou-se no ambiente jurídico. Iniciando como escrevente no 2º Notário Público em 1908, ele ascendeu ao cargo de Oficial Maior do Cartório do 2º Ofício. Sua caneta não apenas registrava a burocracia cotidiana, mas viabilizava o futuro da cidade: em abril de 1932, foi ele o responsável pela lavratura da escritura de doação do terreno onde seria erguido o Estádio Humberto Reale, o histórico reduto do Esporte Clube São Bento.
Sua dedicação à comunidade começava nos detalhes, preparando papéis para casamentos e realizando escritas particulares, demonstrando uma versatilidade que o tornava um ponto de referência para a população local.
O triunfo da educação e a ‘redenção’ política
Entre 1926 e 1930, Renato assumiu o comando do Diretório do Partido Republicano Paulista (PRP). Sua gestão marcou o fim do “Vergueirismo”, ala política que dominava a região havia décadas. Amigo pessoal da família Prestes, ele aceitou a liderança sob uma condição inegociável: que o governo estadual trouxesse a Sorocaba a infraestrutura educacional que a cidade necessitava.
O resultado dessa articulação atingiu seu ápice em novembro de 1928, com o que a imprensa chamou de “três notáveis melhoramentos”. Graças ao empenho do diretório, foram garantidas:
A Escola Normal Livre (anexa ao Ginásio); a Escola Profissional (atual Fernando Prestes); e a estadualização do Ginásio Municipal.
O compromisso era tão pessoal que o próprio diretório coordenou a busca por prédios centrais para abrigar esses educandários, tirando Sorocaba de um estágio de estagnação que já durava 30 anos.
Justiça social e meritocracia
A visão de Mascarenhas ia além dos tijolos. Em janeiro de 1929, sob sua influência política, a prefeitura instituiu uma medida pioneira de inclusão: a dispensa de taxas de matrícula e exames para alunos órfãos ou de famílias de baixa renda que demonstrassem “gosto pelas letras e aplicação nos estudos”. Essa política garantia que o talento intelectual não fosse barrado pela falta de recursos, promovendo uma das primeiras formas de mobilidade social institucionalizada na cidade.
Conduta inabalável e integridade ética
A integridade de Renato Mascarenhas foi testada após a Revolução de 1930. Devido à sua ligação com Júlio Prestes, ele chegou a ser detido e teve sua vida pública e privada devassada por opositores. Contudo, a investigação minuciosa nada encontrou que desabonasse sua conduta, consolidando sua imagem como um homem “culto e honrado” mesmo diante de seus adversários mais ferrenhos.
Legado institucional e familiar
Fora dos gabinetes, Renato foi o primeiro presidente do Clube União Recreativo e figura de destaque na Loja Maçônica Perseverança III, onde foi Venerável em diversos períodos e vice-presidente em 1932.
Renato Mascarenhas faleceu em 31 de maio de 1937, mas seu nome permaneceu vivo através de suas obras e de sua linhagem. Seu filho, o dr. Bento Mascarenhas, herdou sua vocação educacional, dirigindo por anos a Escola Normal e garantindo que o compromisso da família com o saber continuasse a moldar as futuras gerações de sorocabanos.
Carlos Pinto Neto é advogado, secretário da Academia Sorocabana de Letras, membro do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Sorocaba, diretor de Relações Institucionais da GIA União Cultural, presidente do Instituto Cultural “José Aleixo Irmão”
Nota de Redação: Na foto estão os componentes do Diretório do PRP que batalharam pela causa do Ginásio Municipal. Em é, da esquerda para a direita, estão: João Ferreira da Silva, Renato Mascarenhas, Luiz da Silva Oliveira, João Câncio Pereira e Simpliciano de Almeida. Sentados, da esquerda para a direita, estão: João machado de Araújo, Davi Augusto de Almeida, João Padilha de Camargo, Januário Salerno e Isaac Pacheco