Renato de Oliveira Camargo Junior
Simplicidade: um movimento de libertação interior
Vivemos em meio à cultura do excesso. Nunca tivemos tantos bens, tantas informações e tantas oportunidades. A lógica dominante dita que quanto mais, melhor — mas, paradoxalmente, nunca estivemos tão descontentes. Basta observar a rotina daqueles se aventuram nessa direção e a maneira ansiosa e insatisfeita como andam por aí.
Neste contexto, o caminho da simplicidade pode parecer algo demasiadamente chato e estranho, uma espécie de roupa fora de moda. Mas, na verdade, constitui o antídoto para o nosso próprio julgamento contaminado pelo consumismo. Teremos coragem de encarar essa enfermidade, ou nos deixaremos levar pela maré?
A simplicidade, no sentido mais profundo, não é sobre renunciar tudo e viver a partir de um voto de pobreza. Trata-se, antes, de reorganizar o olhar sobre a vida. Demanda a capacidade de distinguir o que é essencial do que é apenas urgente ou passageiro. É recuperar a capacidade de estar satisfeito, sem depender de estímulos constantes.
Curiosamente, essa percepção não é nova. Há séculos, o apóstolo Paulo escreveu sobre algo que ficou conhecido como “o segredo da felicidade”. Ele afirmou ter aprendido a viver bem tanto em momentos de abundância, quanto de escassez. Em outras palavras, sua estabilidade não dependia das circunstâncias, mas de algo mais profundo.
A simplicidade interior requer uma investigação profunda sobre onde temos colocado a nossa alegria. Grande parte do cansaço moderno vem do fato de tentarmos extrair satisfação de coisas que, por natureza, são limitadas: dinheiro, status, reconhecimento, etc... Elas podem até trazer prazer momentâneo, mas, em hipótese alguma, sustentam uma vida inteira.
Pense, por exemplo, em alguém que conquista uma promoção tão esperada. Nos primeiros dias, há entusiasmo, senso de realização. Mas, pouco tempo depois, surgem novas pressões, novas metas — e aquela satisfação inicial começa a desaparecer. O problema não está na conquista em si, mas na expectativa de que ela seja suficiente para preencher tudo.
A espiritualidade cristã aponta para uma fonte de alegria menos instável. Ela sugere que a vida não encontra sentido naquilo que temos ou conquistamos, mas no relacionamento íntimo e profundo com Deus — um tipo de vínculo que não oscila conforme as circunstâncias. E esta possibilidade está aberta a todos os que o buscam de coração.
Outro aspecto importante dessa simplicidade é reconhecer que não fomos feitos para viver sozinhos. Em uma cultura que valoriza a independência a qualquer custo, admitir que precisamos de ajuda pode parecer desconfortável. No entanto, a vida se torna mais leve quando repartimos os nossos fardos e nos ajudamos mutuamente.
Por fim, essa simplicidade produz algo raro e profundamente desejável: o contentamento. Não um contentamento fruto de passividade ou acomodação, mas de uma serenidade para com quem somos e temos em Deus. É a capacidade de aproveitar uma refeição simples sem sentir que estamos perdendo algo melhor. É conseguir descansar sem culpa. É ter prazer em repartir.
No fundo, o movimento da simplicidade é um convite. Um convite a desacelerar, a reavaliar prioridades e a reconhecer limites. Em um mundo que nos empurra para o excesso, escolher o essencial pode ser um ato de coragem. A final das contas, viver bem não tem a ver com ter mais — mas em se apegar em Deus e em seu cuidado constante para com as nossas vidas.
Renato de Oliveira Camargo Junior, é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.