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João Scavazza

Três tendências que estão redefinindo a manufatura em 2026

13 de Março de 2026 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: REPRODUÇÃO)

A manufatura global passa por uma transformação estrutural impulsionada por automação avançada, digitalização profunda e pressões geopolíticas sobre as cadeias de suprimentos. Em 2026, competitividade industrial depende da capacidade de operar com integração equipamentos e sensores conectados, eficiência energética, operações orientadas por dados e arquiteturas resilientes. Segundo o General Manufacturing Global Industry Research Report 20242030, o setor pode alcançar US$ 1 trilhão até o fim da década, reforçando a necessidade de atualização tecnológica contínua.

Esse cenário abre uma oportunidade estratégica para o Brasil se consolidar como hub regional em manufatura avançada e infraestrutura digital, especialmente com a expansão simultânea de IA, Data Centers e sistemas de armazenamento de energia.

A seguir, as três tendências estruturais que moldarão 2026 sob uma perspectiva técnica.

1. Digitalização e manufatura inteligente como novo padrão operacional

As indústrias estão migrando de uma automação tradicional para operações conectadas e orientadas por dados. Essa evolução exige tecnologias que tornam o chão de fábrica mais rápido, eficiente e autônomo, como:

. Sensores inteligentes com IA, que monitoram processos em tempo real e detectam eventos relevantes.

. Processamento local (edge computing), permitindo respostas imediatas sem depender da nuvem.

. Análises avançadas, que antecipam falhas e orientam decisões.

. Redes privadas 5G, que garantem comunicação rápida e estável para milhares de dispositivos.

Com 187,9 milhões de usuários de internet no início de 2024, de acordo com o relatório Digital 2024: Brazil do DataReportal (We Are Social + Meltwater), o Brasil dispõe de base digital para adoção de IIoT em larga escala. Em 2026, vantagem competitiva depende da capacidade de:

. capturar dados operacionais em alta resolução,

. integrar informações de diferentes sistemas;

. suportar mecanismos de decisão semi ou totalmente autônomos.

Isso marca a transição de plantas centradas em automação para plataformas industriais orientadas a dados, onde inteligência está distribuída entre nuvem, edge e dispositivos.

2. Reindustrialização e expansão da capacidade produtiva brasileira

A digitalização amplia a demanda por hardware crítico — servidores, sistemas de armazenamento, dispositivos embarcados e plataformas industriais de edge. Isso impacta resiliência da cadeia de suprimentos, engenharia de produtos e integração de sistemas.

O relatório Brazil Data Center Market — Mordor Intelligence afirma que o mercado brasileiro de Data Centers deve atingir US$ 3,38 bilhões em 2026 e US$ 6,67 bilhões em 2031, impulsionado pela expansão hyperscale e pelo aumento das cargas de IA.

Esses números indicam a necessidade de:

. ampliar montagem e integração local de equipamentos de computação,

. desenvolver cadeias produtivas domésticas para componentes de alta complexidade,

. habilitar OEMs e EMS brasileiras a atender crescente demanda regional.

O Brasil já dispõe de uma base industrial capaz de aproveitar esse novo ciclo de crescimento. Para consolidar essa posição, as empresas precisam avançar em automação, sistemas digitais de gestão de manufatura (MES), conectividade industrial e capacitação técnica.

3. O consumidor como motor da arquitetura de produtos e operações

As expectativas do consumidor estão acelerando mudanças profundas na indústria. Produtos precisam sair de fábrica já conectados, atualizáveis por software e compatíveis com diferentes ecossistemas, além de permitir personalização rápida. Isso força cadeias produtivas a operar com mais flexibilidade e ciclos menores.

A transição energética reforça esse movimento. O mercado brasileiro de baterias para armazenamento de energia deve crescer de US$ 216,9 milhões em 2025 para US$ 4,47 bilhões em 2034, de acordo com o relatório Brazil Energy Storage Market da IMARC Group. Já a capacidade instalada atingiu 685 MWh em 2024, com 269 MWh adicionados no ano, segundo o Estudo Estratégico de Armazenamento de Energia da consultoria Greener. O primeiro leilão nacional de baterias, previsto para abril de 2026, deve movimentar mais de US$ 2 bilhões e impulsionar a segurança energética.

Com processos, equipamentos e consumidores cada vez mais digitais, energia, conectividade e dados passam a funcionar como uma única infraestrutura, essencial para dar suporte ao novo ritmo da manufatura.

Convergência como núcleo da arquitetura industrial de 2026

Digitalização, escala produtiva e foco no usuário convergem para um novo modelo industrial em que equipamentos e sensores conectados, infraestrutura computacional e armazenamento de energia formam um ecossistema operacional integrado.

Organizações que adotarem infraestrutura digital robusta, engenharia e P&D conectados, inteligência distribuída (edge + IA) e soluções energéticas avançadas,liderarão o próximo ciclo industrial no Brasil e na América Latina.

João Scavazza é diretor de Operações da Flex.