Antonio Luiz Ponte
Reminiscências
O cérebro acabou de me fazer voltar no tempo. Pousei, anos atrás, no aconchego do lar, rememorando o acolhedor amor de meus pais e o convívio com meus irmãos na rua Sete de Setembro, próximo à Praça 9 de Julho.
Meu pai, funcionário público, atuava no Palácio da Saúde, era Economus no Seminário Diocesano e sócio do sr. Vilela em um armazém na rua da Penha, próximo à Padaria Real. Senti a corrida de casa até o armazém — uma disputa particular entre mim e meu irmão para saber quem era mais rápido ao completar o trajeto de ida e volta quando mamãe nos pedia para buscar algum produto.
Nossa casa tinha um quintal enorme no fundo ou, pelo menos, parecia ser assim em minha imaginação. Esse mesmo fundo fazia fronteira com o terreno do Seminário Diocesano, onde passamos nossa infância brincando com os seminaristas, dividindo nosso tempo com os padres e as madres, que tinham por nossa família um carinhoso apreço. Meu pai tratava das finanças e cuidava do patrimônio da instituição. Dentre os bens, duas chácaras nos ofereceram, por longo tempo, fartura de alimentos e diversão. Selávamos os cavalos, colhíamos frutas no pomar e ajudávamos a recolher o rebanho.
Não existia nada mais divertido do que sentar ao lado de meu pai e, por alguns momentos, apoderar-me da direção da caminhonete F-100 amarela que fazia o percurso até as chácaras. Era apenas a sensação de dirigir, sem acionar os pedais, mas como era gostoso! Outra boa recordação: jabuticabeiras carregadas; uma corda lançada no galho mais próximo, repleto das frutinhas; juntando as duas extremidades da corda, chacoalhava-se o galho e o chão macio de folhagens secas ficava forrado de jabuticabas, que eram colhidas e levadas ao Seminário.
O Seminário... que lugar! Um majestoso prédio repleto de mangueiras, abacateiros, eucaliptos, horta, quadra, campos de futebol e um jardim espetacular, cuidado pelo homem que hoje é jardineiro no céu: o “vô” emprestado, o “Vô João”. Um baiano admirável, médico sem diploma que acudia os enfermos da família e era responsável pela cuidadosa manutenção daquele imenso repositório de diferentes espécies de plantas e flores. Era colega de trabalho de meu pai; ambos eram funcionários públicos no posto da Secretaria da Saúde, próximo à rodoviária — o “Palácio da Saúde”, nome pomposo que, naquele tempo, ainda dignificava sua nobre missão.
Não conheci outro homem em minha vida capaz de praticar com tanta alegria o princípio cristão do amor ao próximo. Nunca estava cansado; atendia a todos com atenção, carinho e um sorriso acolhedor. Quantos exemplos de solidariedade e gestos samaritanos na preocupação com os indigentes caídos. Ele não se afastava, nem atravessava a rua ou passava insensível. Parava, conversava, oferecia conforto e alimento; mesmo tendo uma vida simples, era capaz de tirar o casaco do próprio corpo para oferecê-lo ao necessitado. Figura incrível, anjo enviado à Terra com uma missão clara: fomentar a esperança no ser humano!
Fui um privilegiado por conhecê-lo. Como sou grato a Deus por ter testemunhado e recebido o carinho de pessoas como ele, tão nobres, iluminadas e importantes. Algo curioso: meu “vô” João era da Igreja Batista e trabalhava no seminário católico. Foi o exemplo mais claro que vivenciei sobre a possibilidade de convivência entre as diferenças.
O Seminário era lindo, enorme, uma festa para minha infância: jogar bola, correr livremente, subir nas mangueiras para colher as mangas no pé, disputar quem chegava ao galho mais alto dos abacateiros, soltar papagaio e balão, rodar pião, pular o barranco, subir na gruta, escorregar pelos corrimões das escadarias e frequentar o escritório de meu pai, com aquele cheiro característico do famoso óleo de peroba passado nos móveis — uma sinestesia arquivada na memória.
No teatro, os seminaristas representavam peças. Eram estudantes acolhidos em tempo integral que dormiam em um salão imenso, com as camas distribuídas paralelamente. No enorme refeitório, as madres preparavam o almoço e o jantar das dezenas de rapazes que lá estudavam, vindos das mais diferentes cidades do Estado de São Paulo. Eram exímias cozinheiras e doceiras; faziam doces divinos e minha proximidade com elas tornava-me um consumidor assíduo dessas guloseimas. Queriam que eu fosse padre, e a irmã Bernadete, alma generosa, me questionava: “O que você vai ser quando crescer?”. “Padre... é claro!”, e lá vinham as bolachas, os doces e o carinho daquelas mãos dedicadas à Igreja.
Os padres eram amigos da casa: Dom Aguirre, Mucciolo, Mauro, Emílio, Sola, Mário, Bloes, Misiara, Castanho, Jaime, Aldo... nomes que ficaram na lembrança, cada um com seus gestos e discursos; homens que tinham a missão de educar e prover a Igreja de novos pastores. Eram imperdíveis as festas, principalmente as de junho, com quadrilhas, congadas, barracas e fogueira. Amava tudo aquilo: o “Dieto” (apelido do Benedito, ajudante de jardinagem), o Chicão, o Jurandir (funcionários da manutenção), o barbeiro Orsini, o Aurélio, que cuidava da horta, seus filhos e filhas (amigos de infância) e o segurança Simão, que fez o papagaio mais pesado que já tivemos. Ao alçar voo, quase nos levava junto!
E os seminaristas: Risquinho, Boy, Marmo, Inácio, Sutillo, Chico, Henrique, Tozzi, Sampaio... tanta gente. Mas tudo isso teve um fim com o término das atividades de ensino do Seminário, razão de ser da sua existência e da presença de todos. Porém, não para meu cérebro.
Antonio Luiz Pontes é presidente da Academia Sorocabana de Letras e membro do Conselho Superior da GIA — União Cultural.