Marcelo Augusto Paiva Pereira
O concreto
Ao surgir a arquitetura modernista, capitaneada pelos pioneiros o americano Frank Lloyd Wright (1867-1959), o franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), o finlandês Alvar Aalto (1898-1976) e a escola alemã de artes e ofícios da Bauhaus (1919-1933), o concreto foi considerado pelo arquiteto franco-suíço o “material da nova civilização da máquina” e utilizado em diversas obras. Incorporou o movimento modernista (funcionalista) devido ao efeito estético brutalista, derivado de sua plasticidade e resistência. Será ele abordado sob a óptica da estética, estrutura e cultura, cujos comentários abaixo seguem.
À luz da estética, produz estilos rústicos ou sofisticados, sem depender de pinturas nem revestimentos; a textura do concreto aparente, inclusive, pode ser trabalhada nos moldes “in loco”, pré-fabricados ou com finalidade artesanal, ao encontro da forma prevista no partido arquitetônico.
Em relação ao elemento estrutural, o concreto permite a construção de muitas formas orgânicas e grandes vãos livres, sem depender de paredes portantes, assim como no uso de “pilotis” para suspender os edifícios e ampliar os espaços de circulação e de convívio no andar térreo e em outros, a depender do projeto.
Quanto ao foco cultural, o concreto fomenta novas consciências arquitetônicas e rompe costumes arcaicos ou extemporâneos, inadequados ao momento atual. Ele produz formas que poderão traduzir mais do que a estética e atingir o campo da cultura mediante propostas futuristas, lúdicas, representativas, sóbrias e outras. A corrente arquitetônica (modernista, minimalista, estilo internacional, pós-modernista ou neomodernista) definirá a forma (estética) reclamada pela função do projeto no partido do arquiteto.
Nos projetos e construções com concreto brutalista (tem estrutura aparente) qualquer aplique, grafitagem, pintura ou revestimento dependerá do projeto, o qual foi pensado e desenhado para ter a configuração (forma e função) final como previsto.
Se o arquiteto expôs a massa bruta aparente do concreto, foi para representar algum objeto ou valor correspondente à forma e à função do edifício, justificadas por alguma razão cultural em relação à sociedade a que se destina (a biblioteca pública de Sorocaba, por exemplo — foto). Se, ao contrário, quis revesti-la com tintas coloridas ou neutras (cinza, por exemplo), o edifício também deverá ser concluído em conformidade ao partido arquitetônico.
Conclusivamente, o concreto aparente tem mais finalidades do que servir de estrutura; ele também representa o movimento artístico que influenciou a arquitetura na produção de projetos e construções desde o início da corrente modernista. Tem estética própria, a ser trabalhada nas formas e nas funções dos edifícios, com vistas a exaltar aspectos estruturais e culturais que os edifícios representam aos usuários e às sociedades a que se destinam. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.