Renato de Oliveira Camargo Junior
Da lógica do contrato ao espírito da aliança
Vivemos em um mundo de contratos. Eles estão por toda parte, regulamentando vínculos, acordos e fusões. Existem contratos de compra, de venda, de aluguel, de prestação de serviços, de financiamento, de hospedagem, de licenças, de consórcios, de permutas, de sociedades e até mesmo de casamento.
Uma de suas características mais comuns são as cláusulas. Nelas, deixamos claras as nossas premissas e condições. Enquanto essas cláusulas são devidamente observadas, os contratos permanecem de pé. Mas, à medida que são transgredidas, os contratos podem ser rescindidos imediatamente.
Contratos são legítimos e têm sua importância comprovada no desenvolvimento social. Entretanto, quando a lógica dos contratos passa a definir a maneira como nos relacionamos uns com os outros, podemos ter sérios problemas. Afinal de contas, a vida real não é tão linear e previsível quanto gostaríamos.
Pessoas que se relacionam a partir da lógica do contrato vivem esperando que os outros cumpram as cláusulas estabelecidas por elas. E, para piorar a situação, muitas dessas cláusulas não são elaboradas em conjunto, contêm expectativas altíssimas e não são compartilhadas com clareza.
Por causa disso, temos assistido à destruição de muitas amizades, de muitas famílias, de muitos namoros e até mesmo de muitos casamentos. Aqueles que transgrediram não têm chance de se redimir; e aqueles que se sentiram ofendidos acabam morrendo abraçados com as próprias razões.
Ao folhearmos a Bíblia, descobrimos que a lógica utilitarista dos contratos não é a única maneira de nos relacionarmos uns com os outros. Existe uma alternativa, sobremodo excelente, que viabiliza a construção de relacionamentos saudáveis e duradouros: o espírito da aliança.
Ao longo da história, Deus evidenciou essa maneira de se relacionar conosco ao fazer uma aliança com Noé, uma aliança com Abraão, uma aliança com Moisés, uma aliança com Davi e uma aliança com o próprio Jesus. Essas alianças não eram diferentes entre si, mas expressões da mesma aliança, preservada de geração em geração.
Mas quais são as principais diferenças entre a lógica dos contratos e o espírito da aliança?
Em primeiro lugar, enquanto uma opera com uma contabilidade afetiva (“se eu fiz isso por você, você me deve aquilo”), a outra opera com uma contabilidade graciosa (“faço isto porque você necessita, porque é correto, porque te amo de verdade”).
Em segundo lugar, enquanto uma opera com um compromisso interessado (“permaneço com você enquanto for vantajoso”), a outra opera com um compromisso altruísta (“a sua alegria é a minha alegria, a sua satisfação é a minha satisfação, o seu prazer é o meu prazer”).
Em terceiro lugar, enquanto uma opera com uma sanção negativa (“se você não fizer o que eu espero, eu estou fora”), a outra opera com uma sanção positiva (“se não existe maneira de me relacionar com você sem que eu seja eventualmente ferido, ainda assim estou disposto a perdoá-lo para que permaneçamos juntos”).
Não estou dizendo, com isso, que Deus proíbe rompimentos e separações. O próprio Jesus afirmou que, por causa da dureza do coração humano, foi permitido oferecer carta de divórcio. Mas o que está ocorrendo hoje em dia é muito diferente: as pessoas estão rompendo por qualquer coisa, e isso esfacela as nossas relações.
Como você tem se relacionado com as pessoas ao seu redor? A partir da lógica do contrato, de maneira dura e inflexível diante dos conflitos e desilusões? Ou a partir do espírito da aliança, estendendo àqueles que o cercam, o benefício de serem amados e acolhidos apesar de suas falhas e imperfeições?
Aqueles que se abrem para cultivar um relacionamento com Deus, mediante a nova aliança que está em Cristo Jesus, têm recursos de sobra para se dedicar aos outros da mesma forma como Ele se dedicou a nós. Fazer isso é muito mais do que presentear outros; é dar passos concretos para mudar o mundo através do amor.
Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.