Maria Aparecida Almeida Dias de Souza
A herança de Tibiriçá: cinco séculos de história e a gênese de Sorocaba
Você já parou para pensar que pode ser descendente de um dos mais importantes líderes indígenas da história do Brasil? Apesar de terem se passado cinco séculos, uma gama enorme de paulistas descende do Cacique Tibiriçá e desconhece essa origem. Esse desconhecimento é perfeitamente explicável: em 500 anos, passaram-se de 15 a 20 gerações que se espalharam por todo o território nacional, construindo uma grande nação.
Através de livros paroquiais, cartoriais e documentos antigos, a genealogia nos permite resgatar essas raízes. Um de seus objetivos fundamentais é estabelecer essa ponte temporal entre o ontem e o hoje.
O sangue de Tibiriçá na elite e na cultura
Em sua obra “A Grande Nação”, o genealogista Luiz Antônio Alves enumera descendentes ilustres de Tibiriçá que moldaram o Brasil:
Política: Prudente de Moraes (primeiro presidente civil da República) , Campos Sales, Getúlio Vargas e Osvaldo Aranha.
Artes e literatura: Mário de Andrade e Monteiro Lobato.
Espiritualidade: Dom José Carlos Aguirre (primeiro bispo de Sorocaba) e o Padre Diogo Antônio Feijó.
Economia: Olavo Setúbal, banqueiro e ex-presidente do Banco Itaú.
A lista é vasta e prova que somos, em essência, uma terra de mamelucos — a mistura do português com o indígena. No período do Descobrimento, os líderes tribais sentiam-se honrados em oferecer suas filhas aos portugueses, como ocorreu com as filhas de Tibiriçá, Arcoverde e Araribóia.
Quem foi o cacique?
Figura central na fundação de São Paulo, Tibiriçá nasceu por volta de 1481 e faleceu em 1562, aos 81 anos. Ele colaborou intensamente com os jesuítas e ajudou na defesa da vila de São Paulo contra ataques de outras tribos. Seus restos mortais descansam hoje na Catedral da Sé.
Das filhas de Tibiriçá, três se destacam na história: Bartira (Isabel Dias), Terebé (Maria de Grã) e Benta (ou Beatriz) Dias. Esta última é a que possui o vínculo mais profundo com a nossa região.
A conexão sorocabana: Balthazar Fernandes
Benta Dias e Lopo Dias foram os pais de Suzana Dias. Suzana, por sua vez, casou-se com o português Manuel Fernandes Ramos, dando origem aos famosos “Fernandes Povoadores”: André Fernandes (Povoador de Santana de Parnaíba); Domingos Fernandes
(Fundador de Itu); e Balthazar Fernandes (Fundador de Sorocaba).
Balthazar Fernandes, bisneto de Tibiriçá, chegou às terras sorocabanas por volta de 1645. Construiu sua casa às margens do rio Sorocaba e ergueu a Capela de Nossa Senhora da Ponte (atual Igreja de Sant’Anna), que doou aos monges beneditinos sob a condição de que rezassem uma missa por mês por sua alma.
A partir de sua chegada definitiva com a família e cerca de 300 indígenas em 1654, formou-se o arraial que deu origem à nossa cidade. Estima-se que, somente da linhagem direta de Balthazar, existam hoje milhares de descendentes espalhados pelo Brasil.
Um DNA vivo
Apesar dos 500 anos de distância, o DNA de Tibiriçá permanece vivo. Seus descendentes ocupam hoje postos em variadas atividades: de agropecuaristas a banqueiros, de maçons a religiosos.
Hoje, como legítima descendente de Tibiriçá em sua 13ª geração, compreendo que somos todos parte desta grande família numerosa que construiu o interior paulista e o Brasil.
Maria Aparecida Almeida Dias de Souza, vice-presidente da Academia Sorocabana de Letras