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Vanessa Marconato Negrão

Para que e a quem serve a literatura infantil?

20 de Fevereiro de 2026 às 22:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: FREEPIK)

 

A literatura infantil, desde suas origens, é atravessada por uma tensão: deve servir como arte, que proporciona fruição estética e liberdade, ou como instrumento pedagógico, moral e utilitário? Ainda hoje, essa questão permanece central no debate sobre seu papel na escola e na formação das crianças.

É comum que professores e famílias recorram a livros que transmitam valores ou auxiliem em situações específicas, como, por exemplo, a chegada de um irmão. O mercado editorial, atento a essa demanda, multiplica títulos que buscam “resolver problemas”, reforçando a visão da literatura como ferramenta prática. Esse uso, no entanto, restringe a experiência estética, reduzindo o ato de ler a uma função moralizante ou disciplinadora.

A tradição de associar literatura à pedagogia remonta à Antiguidade, como na tragédia grega, usada para transmitir lições sociais e políticas. No Brasil, desde a criação da Biblioteca Nacional, as primeiras obras para crianças circularam sempre atreladas ao espaço escolar. Até o século XX, a crítica considerava a literatura infantil um gênero secundário, equiparado a brinquedos ou atividades de entretenimento. Foi apenas recentemente que sua relevância cultural e formativa começou a ser reconhecida.

Um dos grandes equívocos que atingem a fruição literária está no trato escolar da literatura: o planejamento central baseado em datas comemorativas. Como lembra Saviani, pensar a educação somente atrelada ao calendário reduz a escola a um espaço de festas e rituais, desviando-se de sua função principal: oferecer acesso ao conhecimento e à cultura. A literatura, nesse contexto, acaba sendo instrumentalizada de acordo com a sazonalidade, perdendo sua força estética e transformadora.

A fruição literária, é marcada pela gratuidade e pela liberdade. Ler literatura não é apenas decodificar palavras, mas viver uma experiência estética que envolve emoção, fantasia e reflexão. Nesse encontro, o leitor atribui sentidos próprios ao texto, ampliando sua subjetividade e sua visão de mundo. Como diz o professor Percival de Leme Britto, a literatura serve “para nada e para tudo”: não tem função prática imediata, mas é capaz de formar, consolar, incomodar, abrir horizontes e alimentar a imaginação.

Ao reduzir a literatura a fins utilitários, perde-se sua dimensão de arte. A literatura é também resistência: tensiona normas, rompe paradigmas, possibilita a construção da liberdade. Barthes e Cândido reforçam que sua força está menos em mensagens ou conteúdos e mais na experiência que promove — humanizadora, plural e contraditória, pois traz consigo tanto o bem quanto o mal.

Em tempos digitais, marcados pelo excesso de informações e pela escassez de atenção, deslocar a literatura do campo da utilidade para o da fruição torna-se ainda mais urgente. A leitura literária, quando vivida em sua plenitude, é um direito cultural e democrático: amplia horizontes, permite o exercício da subjetividade e contribui para a construção de uma sociedade mais crítica e sensível. Ninguém gosta de receber lição de moral o tempo todo — com as crianças não é diferente. Quando a literatura é reduzida a uma função moralizante, mais afasta do que aproxima, pois limita sua potência e esvazia a experiência de encantamento que poderia suscitar.

A literatura não é acessório, mas parte essencial da experiência humana. Ler não é apenas aprender, mas viver — experimentar outras formas de ser, compreender o outro e a si mesmo. A literatura para crianças tem valor equivalente, e, nas palavras de Mac Barnett “Se você acha que livros infantis não são livros de verdade, de alguma forma você acha que crianças não são seres humanos de verdade”.

Vanessa Marconato Negrão, é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras