Lígia Zanella
Sobre fugas e realidades
Como se foge da realidade? Muitas pessoas utilizam as redes sociais para esse fim, preferindo perder-se em um universo de postagens insípidas a viver a vida real, que pode ser tão dolorosa e cansativa. Quem não desejaria ser como Alice que, ao seguir um coelho falante, lança-se em um buraco na árvore sem olhar para trás? Muitas vezes, não queremos morrer; desejamos apenas descansar. Existe, inclusive, um termo em inglês para quem passa tempo excessivo perdido em postagens no celular: brain rot (que, em tradução livre, significa “cérebro podre”).
Isso me dá a impressão de que tal fenômeno é uma consequência da necessidade de fugir da realidade; a internet tornou-se o nosso “buraco na árvore” (ou, poderíamos dizer, o nosso buraco de minhoca). Ela representa nossa libertação de tudo o que nos pressiona. No entanto, nas histórias, a vida de um viajante não é tão simples. Personagens como Alice (Alice no País das Maravilhas), Chihiro (A Viagem de Chihiro) e Lúcia (As Crônicas de Nárnia) partiram do nosso mundo para outros totalmente diferentes, repletos de figuras ora loucas, ora sábias. Elas precisaram enfrentar diversas adversidades para, então, retornar ao mundo real.
O amadurecimento através da fuga
Fugir do nosso mundo não resolve os problemas porque, na verdade, o problema sempre fomos nós mesmos. Nessas histórias, a questão central é criar a possibilidade de o personagem amadurecer para, então, enfrentar o mundo real sob uma nova perspectiva. A ideia nunca foi apenas descansar, mas amadurecer para ser alguém capaz de descansar mesmo em meio aos percalços.
Chego, portanto, a uma conclusão: mundos paralelos não existem para nos proporcionar repouso, mas sim para nos fazer amadurecer ou nos fazer adoecer. Nesse sentido, impressiona-me a eficiência do “outro mundo” oferecido através das telas. Elas não nos fazem amadurecer; pelo contrário, é nítido como geram estresse e ansiedade, tornando-nos menos efetivos. São, de fato, muito eficazes em fazer o nosso cérebro “apodrecer”.
A escolha de novas ‘‘árvores”
Como, então, fugir da realidade com qualidade? Pois, sim, existem outras “árvores” nas quais podemos entrar e que serão muito mais efetivas em nos fornecer o que precisamos para viver a realidade da melhor forma. Quais seriam elas? É provável que válvulas de escape como o cigarro e a bebida tenham passado pela sua mente, mas esses também são buracos que não geram grandes efeitos positivos.
Embora existam as viagens, minha grande defesa neste texto são os livros. Na última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, descobrimos que temos mais não leitores do que leitores em nosso País. Isso me faz questionar: quais mundos estamos abraçando como válvulas de escape para este cotidiano cansativo?
Ler não é fácil, especialmente se nos tornamos adeptos de um sistema que exige que tudo aconteça rapidamente. Imaginar o que um texto diz é difícil e até doloroso. Sei como é, pois enfrento isso em quase toda leitura: minha mente dispersa e preciso parar para reler o que meus olhos viram, mas não traduziram.
Persisto porque aprendi que a leitura é um treino; um mundo que exige insistência para nele permanecer. Essa árvore é um desafio para muitos e a tendência, se deixarmos de insistir nela, é que mais brasileiros se tornem não leitores. Conhecer mundos paralelos de qualidade pode ser desafiador. Talvez seja mais fácil recorrer aos mundos que não nos geram nada de bom e que trazem apenas prazer rápido, mas qual resultado esperamos disso?
Precisamos de opções para escapar deste mundo exaustivo, mas o lugar para onde iremos é uma escolha. Boas fugas da realidade exigem esforço, e ganhamos de volta recompensas muito melhores do que “cérebros podres”. Penso nos livros, mas não é só com eles que podemos contar para uma fuga de qualidade.
Sendo assim, quais são as suas “árvores” e quais recompensas elas lhe geram? Para mim, entrar na árvore da leitura é sempre um desafio, mas, quando finalmente consigo, a recompensa é de fazer lacrimejar os olhos e palpitar o coração. Eu não trocaria essa experiência por nada e recomendo que você busque o mesmo. Uma boa fuga da realidade não exigiria menos que isso.
Lígia Zanella é escritora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.