André Charone
Endividamento dos brasileiros cresce e expõe o peso do crédito caro na vida das famílias
O brasileiro está voltando a dever mais, e pior, a pagar cada vez mais caro por isso. Dados do Banco Central mostram que, em julho de 2025, o endividamento das famílias alcançou 48,6% da renda anual, um patamar considerado alto por economistas. Quando se exclui o crédito imobiliário, esse percentual ainda chega a 30,4%, revelando a dependência crescente de linhas de crédito de curto prazo.
Mas o dado que mais preocupa é outro: segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 79,2% das famílias brasileiras estão endividadas, e a inadimplência, quem tem pelo menos uma dívida em atraso, atingiu 30,5%, o maior nível desde que a série histórica começou, em 2010.
Enquanto o volume total de dívidas cresce de forma moderada, o custo de carregá-las dispara. Em setembro, o rotativo do cartão de crédito ultrapassou 450% ao ano, mesmo com a nova regra que limita os juros e encargos a 100% do valor original da dívida.
O problema hoje não é só quanto o brasileiro deve, mas quanto custa dever. Juros de 15% ao ano na Selic empurram o custo do crédito para um patamar insustentável para quem depende do cartão ou do cheque especial.
O crédito virou remendo de orçamento. O cartão de crédito se tornou a principal válvula de escape das famílias para fechar o mês e, paradoxalmente, a principal armadilha. Ao atrasar uma fatura, o consumidor é jogado no rotativo, onde a dívida dobra em poucos meses. Mesmo quem tenta parcelar a fatura enfrenta encargos acima de 10% ao mês, criando uma “bola de neve silenciosa”.
Com cerca de 27% a 28% da renda comprometida com prestações e juros, basta um imprevisto, uma consulta médica, o aluguel que subiu, um gasto escolar, para que o orçamento desabe. E, diante disso, muitas pessoas recorrem a mais crédito, agravando o problema.
O resultado é um ciclo que se repete: famílias tomam crédito para pagar contas básicas, atrasam parcelas, renegociam, e voltam a se endividar em condições ainda piores. Segundo o especialista, programas como o Desenrola Brasil, apesar de terem ajudado a limpar o nome de milhões, não resolvem o problema estrutural.
Esses programas aliviam momentaneamente o bolso do cidadão, mas sem educação financeira e juros mais baixos, o endividamento volta com força. É como secar gelo.
A renda estagnada e spreads altos alimentam a crise. Mesmo com sinais de melhora do mercado de trabalho em 2025, o poder de compra do brasileiro segue corroído. A renda cresce menos do que a inflação acumulada dos últimos anos e não acompanha o aumento do custo do crédito.
Além disso, o Brasil continua com spreads bancários (diferença entre o que o banco paga e o que cobra) entre os mais altos do mundo. Isso significa que o crédito é caro não apenas por causa da Selic, mas também por fatores estruturais: baixa concorrência, risco de inadimplência e concentração bancária.
Enquanto o País não atacar as causas estruturais do crédito caro, como falta de concorrência, spreads abusivos e ausência de uma cultura de planejamento financeiro, o endividamento continuará sendo um sintoma, não a doença.
E como sair do buraco? As famílias devem evitar o rotativo: se não puder pagar a fatura inteira, parcele imediatamente em condições mais baratas; troque dívidas caras por baratas: procure portabilidade de crédito e compare o Custo Efetivo Total (CET) antes de contratar; construa reserva: pequenas economias mensais evitam recorrer a crédito emergencial.
Já o governo e o sistema financeiro devem tornar o crédito mais competitivo: ampliar a portabilidade e reduzir custos operacionais; incluir educação financeira no ensino básico: ensinar desde cedo o valor do planejamento e do consumo consciente; e acompanhar os efeitos do teto do rotativo: a medida é positiva, mas não resolve o problema sozinha.
A crise do endividamento não é apenas econômica, é também cultural. O acesso fácil ao crédito, a falta de transparência nas taxas e a ausência de planejamento transformaram o consumo em um terreno minado.
No Brasil, aprendemos a gastar antes de aprender a poupar. E enquanto o cartão continuar sendo o prolongamento da renda, o endividamento será o reflexo de um modelo de consumo que cobra caro demais pelo imediatismo.
André Charone é contador, professor universitário, mestre em Negócios Internacionais pela Must University (EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV e certificação internacional pela Universidade de Harvard e Disney Institute (EUA), autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional