Marcelo Augusto Paiva Pereira
Urbanismo industrial
A Revolução Industrial (1760-1840) ocorrida na Inglaterra intensificou a urbanização e o crescimento das cidades, que se tornaram centros de consumo, produção e trabalho, e fomentaram a migração em massa dos trabalhadores rurais em busca de empregos.
Seguem abaixo alguns comentários.
Dos antecedentes à mencionada revolução destacam-se os cercamentos (“enclousures”), meios de privatização de terras comunais que fez vários camponeses migrarem às cidades para procurarem outras atividades laborais. Tiveram início no século XVI e aumentaram nos séculos XVIII e XIX, período no qual as indústrias que afloravam reclamavam por mão de obra e matérias-primas para a produção de bens de consumo.
Além deles, a atividade artesanal dos membros das guildas (ou corporações de ofício), também foi substituída pela máquina a vapor, capaz de produzir muito mais (em menos tempo) do mesmo bem ou mercadoria. Aqueles artesãos perderam espaço para os bens industrializados e precisaram procurar novos empregos.
A urbanização decorrente foi desenfreada e baseada na sociedade mecanizada, desenvolvida e assistida pelas máquinas, inéditas tecnologias que aumentavam a produção e o lucro no menor espaço de tempo.
Junto a essas inovações surgiram o excesso de população, crescimento desordenado, infraestrutura deficiente ou inexistente, aumento da poluição, problemas ambientais e sociais. A insalubridade urbana (em geral) e nas habitações operárias (em especial) causavam várias enfermidades e, em meados do século XIX, levou milhares de pessoas a óbito, vitimadas pela bactéria do cólera.
Esse novo urbanismo, entretanto, iniciou o fim da sociedade estamental ao favorecer a burguesia (procedente do terceiro estamento) ascender econômica e politicamente com a intensa industrialização, criou a divisão técnica e social do trabalho, inovou na hierarquia social (patrões e empregados) e na diferenciação e especialização dos espaços (zonas industriais, comerciais, bairros operários etc.).
Novos projetos surgiram ao longo do tempo para eliminar ou mitigar os gravames causados pelo desenfreado crescimento decorrente das indústrias. Três exemplos são: Ildefonso Cerdá, engenheiro urbanista e político catalão, redesenhou (1860) o espaço urbano de Barcelona; Georges-Eugène Haussmann, prefeito de Paris (1853-70), demoliu a medieval cidade e a reconstruiu como atualmente a conhecemos; e Tony Garnier, arquiteto e urbanista francês, em 1919 apresentou um detalhado projeto de cidade industrial no qual a setorização definia as áreas de administração, cultura, habitação, indústria e lazer no espaço urbano.
Conclusivamente, o urbanismo industrial resultou do avanço tecnológico e científico da Revolução Industrial, em que a sociedade estamental perdeu poder devido à força econômica e política da burguesia junto às indústrias, que surgiam em substituição da atividade rural e da artesanal. Os gravames decorrentes, todavia, foram objeto de novos projetos urbanos que tiveram o escopo de atribuir salubridade e saneamento para que as cidades industriais sejam mais bem urbanizadas. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.