Celso Ming
O dólar, colina abaixo
O dólar vai deslizando declive abaixo. Ao longo de 2025, acumula queda de 13,4%.
Não é tombo trivial. Na condição de moeda mais importante, o dólar define os preços de grande número de bens e serviços e mede a renda (PIB) e o patrimônio dos países (reservas) e dos investidores.
O primeiro fator que explica esse tombo nas cotações é a desvalorização do dólar em relação às demais moedas, produzida pelo certo abalo da confiança na política econômica do presidente Donald Trump, que vai alargando o rombo fiscal.
Outro fator é a grande diferença entre os juros. Nos Estados Unidos, os juros básicos (Fed funds) estão entre 4,5% e 5% ao ano, enquanto a Selic brasileira está nos 15%. É forte estímulo para aumentar a oferta de dólares no Brasil, por meio das operações carry trade que consistem em levantar empréstimos a juros baixos lá fora, reaplicá-los aqui a juros altos e ganhar, no mole, a diferença.
É também um estímulo para que os exportadores tragam para cá seu faturamento em moeda estrangeira para ter um capital de giro a custos mais baixos.
E há percepção de que, embora tenha prejudicado alguns setores, o tarifaço não chegou a abalar a economia brasileira, o que demonstra sua boa resiliência e a maior firmeza do real.
Embora reduza a receita em reais dos exportadores, essa queda dos preços do dólar ajuda a conter a inflação, porque barateia em reais os preços dos produtos importados e dos que são cotados em moeda estrangeira, como petróleo, trigo, soja e milho. Uma inflação mais fraca, por sua vez, permitirá a derrubada dos juros mais à frente.
Assim como querem saber a previsão do tempo, administradores públicos, empresários e pessoas físicas sempre perguntam para onde vai a cotação da moeda estrangeira.
Mas quando se trata do comportamento futuro, as projeções do câmbio embutem alto grau de incerteza, porque sempre estão sujeitas a impactos fora do controle dos governos, como guerras, crises financeiras, catástrofes e surpresas políticas.
Alguns ex-diretores do Banco Central do Brasil, que no seu tempo deram tanta importância às previsões do mercado, hoje não se atrevem a fazer projeções. O que se pode dizer é que, a persistirem os fatores hoje predominantes, ainda parece haver espaço para alguma redução: o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) deve começar a baixar os juros a partir desta quarta-feira e, assim, a diferença entre juros pode aumentar. E é preciso ver até que ponto o tarifaço não puxará a inflação nos Estados Unidos e exigir maior velocidade no ajuste dos juros pelo Fed.
Celso Ming é comentarista de economia.