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José Osmir Fiorelli

Periscópio 3

13 de Setembro de 2025 às 21:45
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: REPRODUÇÃO)

Perambulo através das ruas da cidade. O periscópio do olhar aspira os poemas das ruas. Uns ásperos, outros sutis. Degusto movimentos, cores, detalhes arquitetônicos. A diversidade humana propicia-me conjecturas. O ronco de motocicletas espanta-me o sossego. Voam baixo na luta pela vida.

Celulares atenuam esperas em pontos de ônibus. Logo mais, filas darão bom dia às portas dos bancos e guichês de lotéricas. Um leve frio retira os agasalhos dos armários. Britadeiras celebram o pulsar do progresso, na compensação acústica do planejamento ineficaz. Poucos utilizam protetor auricular. Calçadas recebem águas escassas na estiagem, pois “limpar é preciso”.

Babás atualizam-se nos WhatsApps e os bebês aprendem espaços e costumes. Nas bordas das faixas de segurança pedestres aguardam motoristas complacentes. Rádios resistentes apregoam mal-ouvidas notícias de última hora, boas para jornais que poucos leem. Milhares de TVs ganham vida nos estabelecimentos, sintonizando programas desinteressantes.

O periscópio não descansa. Observar é preciso. Sem o olhar, nada se sabe.

O robusto veículo vermelho, em disparada, prenuncia tragédia para Bombeiros. Na sequência, a polícia corrobora. Cacos de vidro no cruzamento apregoam o desacerto noturno, movido a pressa, álcool e outras coisas. Em leitos hospitalares, o desenlace da imprudência.

Cedo ainda, Vans escolares recolhem a criançada para o longo “tur” diário. Logo depois, a romaria motorizada de pais. Nos terminais, o aroma de desodorante faz pano de fundo à multidão madrugadora. O periscópio percebe os olhares cansados, tediosos, ansiosos, vibrantes, teimosos. Todos se misturam nessa confusão coreográfica cotidiana.

Uberes e táxis disputam fregueses. Nas poucas padarias renitentes, aglomeram-se os que nelas se saciam pela manhã. São pontos de relacionamento, inflacionadores do café com pão doméstico. Logo abrirão incontáveis bares onde a pinga alimenta o vício sob o olhar complacente dos coniventes. A bebida, catalisadora de conflitos, devora o organismo que a consome.

Ciclistas apressados disparam em faixas coloridas, cegos a transeuntes, que se cuidem. Tão apressados quanto, os condutores de veículos buscam as faixas rápidas e perdem a rapidez das lentas. Empregadas chegam para liberar patrões e assumir os lares. Ainda se rezam alguns cultos, embora as religiões não repitam seus dias de glória.

O policiamento posta-se nas portas das escolas, remendo proclamador da falência social. Nos olhares das crianças brilha a esperança. Contemplo em lanchonetes os jovens fumantes. As guimbas nas calçadas testemunham a triste realidade. Observo sob marquises o ressonar dos excluídos, envoltos em cobertores e panos imundos, amontoados, triste duplicata social.

O periscópio prossegue. Não se aprofunda nas questões. Cumpre o dever de indicá-las para a reflexão de mentes especializadas. Dessa varredura comportamental brotarão sementes para investigações sociais e esclarecimento da população. Assim se espera.

José Osmir Fiorelli é engenheiro, psicólogo, escritor. Sócio emérito da Academia Sorocabana de Letras.

A aquarela que ilustra o texto é de autoria da arquiteta e artista plástica Magali Robaina.