Celso Ming
Inflação negativa em agosto
Mesmo quando a inflação engata a marcha a ré, como agora, é preciso ficar de olho nela, porque é termômetro importante da economia. Mexe com poder aquisitivo, com os juros, portanto, com o custo do crédito, e com o conflito distributivo, que é o jogo geral na sociedade em que uns procuram empurrar para outros segmentos da sociedade a conta da perda do poder de compra da moeda.
Em agosto, os preços da cesta de consumo do Brasil, tal como medidos pelo IPCA, caíram 0,11%, um pouco menos do que vinha sendo a expectativa geral, que era queda de 0,15%.
É preciso examinar as causas dessa inflação negativa e o que vem junto para uma melhor avaliação das suas consequências.
Desta vez, o fator que mais contribuiu para o alívio do custo de vida foi o tal efeito Itaipu, uma redução das tarifas de energia elétrica, que não se repetirá.
Mas há outras indicações positivas. Em agosto, dos nove grupos de pesquisa de preços, cinco mostraram queda. Outra indicação importante foi a queda de 0,46% dos preços dos alimentos, que tem mais a ver com a boa produção e com o tarifaço decretado pelo presidente Trump, que aumentou a oferta interna de produtos cuja exportação foi reduzida, como a das frutas, carne e café. O tombo do preço do tomate foi de 13,39% e o da manga, 18,40%.
Outra informação positiva relevante foi a desaceleração da alta dos serviços subjacentes, de 0,40% registrada em julho para 0,34%, em agosto. Este é um item que sempre preocupa o Banco Central porque vem escapando da ação dos juros. Mas, desta vez, o mercado de serviços deu mostras de que já não está mais pressionando a procura como pressionava antes.
Estes são sinais claros de que o aperto no volume de moeda na economia (juros altos) começa a produzir efeitos.
Convém, no entanto, não exagerar na confiança, porque o governo federal continua trabalhando contra a política monetária do Banco Central, na medida em que aciona a manivela da gastança e acaba por injetar dinheiro na economia. Esse mecanismo continua atuante e seus efeitos são fortes.
O que esperar da política de juros, já que, mal ou bem, a inflação está mais perto do teto da meta (de 3% em doze meses, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo) do que há alguns meses?
Por aí não há que esperar por novidades neste ano. Na sua tarefa de cantar antecipadamente as remadas do barco, o Banco Central já deixou claro que uma Selic à altura dos 15% ao ano não deverá mudar este ano. Mas pode começar 2026 com o fim do ciclo de alta. Em janeiro, a dosimetria dos juros vai depender do comportamento da inflação nos próximos meses.
Celso Ming é comentarista de economia.