João Alvarenga
A simbologia do Oscar
Domingo passado, muita gente se esqueceu do sono e foi dormir bem mais tarde. Qual a razão? Talvez, digam: as pessoas ficaram acordadas para acompanhar, pela TV, o desfile das escolas de samba. Sim! Mas, não só por conta disso ficamos com os olhos “grudados” na telinha. O País acompanhou, atentamente, a transmissão, ao vivo, direto de Los Angeles, da cerimônia de entrega do Oscar 2025. Nada tirava o brasileiro de frente da televisão (e com razão); afinal, desta vez, depois de 25 anos, estávamos, novamente, no páreo. Mais do que isso, agora, as chances eram excelentes, já que o filme Ainda estou aqui, de Walter Salles, concorria em três categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva.
Assim, pudemos perceber um clima diferente no ar, uma espécie de retomada do orgulho nacional, porque a produção nacional, a partir das indicações ao prêmio máximo da Academia de Cinema de Hollywood, ganhou visibilidade internacional. Sobraram elogios à adaptação impecável que Sales fez do livro homônimo, escrito por Marcelo Rubens Paiva. Por sinal, filho de Rubens Paiva, que acompanhou, na infância, todo o drama da família, até que, com a abertura política, a verdade veio à tona: o pai foi morto durante o regime militar.
Claro que essa história atraiu a atenção do grande público, além do respeito da crítica. Em pouco tempo, formaram-se filas, nas salas de exibição, pois todo mundo queria acompanhar a trajetória de uma mulher corajosa que, com o desaparecimento do marido, por conta da repressão, teve que suportar a barra de criar, sozinha, cinco filhos. Isso sem perder de vista a dignidade. Por isso, no último domingo, a torcida era tanta, que até parecia que a seleção brasileira estava em campo, para disputar a final da Copa do Mundo.
Assim, como o cinema simboliza a magia, num passe de mágica, a “Pátria de Chuteira” — no dizer do genial Nelson Rodrigues — transformou-se, ainda que por alguns instantes, no “País da Sétima Arte”. Naturalmente, uma onda de alegria contagiou a nação, porque, ainda que Fernanda Torres, injustamente, não tenha sido premiada, nós conseguimos o reconhecimento, ao menos em uma categoria, a de Melhor Filme Estrangeiro.
Mas, o que simboliza esse prêmio, criado em 1927, pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas? Para os críticos, é a mais importante honraria concedida aos profissionais do cinema, reconhecendo o talento e a criatividade de quem faz filmes. Talvez, esse feito, embora inédito, não tenha tocado algumas pessoas, porque acreditam que tudo isso não passa de mera “glamourização” de uma estatueta que pouco ajudará o cinema nacional.
Os que pensam assim estão enganados, porque esse reconhecimento, embora tardio, pode servir de incentivo para os jovens cineastas. Quiçá, possam formar uma cooperativa e, a partir disso, aumentar a produção nacional, a fim de garantir uma maior presença de nossos filmes na maioria das salas.
Claro que tudo isso é um grande sonho, pois sabemos que os cineastas brasileiros lutam bravamente para levar adiante suas produções. Afinal, infelizmente (ainda) não contamos com uma “indústria cinematográfica” sólida, como acontece na Índia, que produz tanto quanto os Estados Unidos. O Brasil precisa pensar em profissionalizar a produção, a fim de gerar emprego e renda, a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos. Talento, temos de sobra, só falta investimento, além de uma melhor distribuição dos filmes, pois muitas produções não chegam ao grande público.
Por outro lado, na terra do “Tio Sam”, os produtores acreditam no potencial do cinema não só como diversão, mas como uma empresa que gera lucro. Por isso, investem pesado nos projetos, porque sabem que os filmes têm garantia de retorno, com excelentes bilheterias em boa parte do planeta. Um dia, chegaremos lá. Bom domingo!
João Alvarenga é professor de redação.