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Nelson Fonseca Neto

Letra Viva

23 de Janeiro de 2025 às 20:56
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: DIVULGAÇÃO)

 

Um injustiçado

Tenho na cabeça uma lista de subestimados e superestimados de diversas áreas: futebol, cinema, música, literatura, política. Subestimados: figuras de primeira linha que não recebem a merecida atenção. Superestimados: figuras que recebem aplausos e a gente pensa “calma, gente”.

Seria antipático falar logo de cara dos superestimados. Poderia soar como desrespeitoso, muita gente ficaria incomodada, alguém acharia que estou bancando o iconoclasta. Se eu falasse aqui dos superestimados da literatura, alguns leitores pediriam a minha cabeça. Fiquemos com as boas coisas da vida.

Não pretendo abrir uma série a partir de hoje, protagonizada pelos queridos subestimados. Não quero prometer e não entregar. O que eu posso adiantar é o seguinte: pretendo colocar aqui, nas próximas semanas, homens e mulheres que merecem nossos elogios.

Sintam o drama, como aperitivo: acho Bezerra da Silva um baita gênio subestimado.

O Palhinha, craque do São Paulo nos anos 90, foi gigante, mas o pessoal fala pouco dele. Um dia falo mais sobre esses caras.

Eu queria começar a série com um sujeito até que bem famoso na literatura, mas que recebe olhares tortos e narizes empinados ainda hoje: Charles Bukowski.

Muita gente se encantou com o Bukowski na adolescência. E muita gente, depois que envelhece, menospreza o cara, como se as coisas escritas por ele fossem meio bobas. Sinceramente, acho isso triste demais.

Tenho quase 50 e, sem medo de ser feliz, digo: Bukowski fica melhor com o tempo. Nesses dias eu estava pensando sobre o porquê de tanta gente tratar o Bukowski como uma besteira da adolescência. Não é por aquilo que aparece em seus textos; é a maneira como ele conta as coisas.

Vamos falar sem enrolação? É fácil ler Bukowski. Poucos autores são tão diretos.

Daquele tipo de escritor que faz a gente pensar: eu também posso escrever assim.

Ah, é? Tá esperando o quê, meu irmão?

Quando a gente lê Bukowski, parece que ele está trocando uma ideia com a gente.

É um grande barato “ouvir” aquele tiozão meio maluco, estropiado, falando da sua vida bandida. Aí, nessas, a gente acha que o cara senta diante da máquina de escrever e baixa o caboclo nele. Escrever “fácil” demanda um trabalho do cão. Ou você acha que é só pensar positivo pra escrever que nem o Rubem Braga?

Não vou mentir: tem hora em que o Bukowski não se mostra uma flor de pessoa.

Ele fala de umas coisas tristes sem querer ser o gente fina da parada. Às vezes a gente pensa: dureza aguentar um cara desses. Depois passa.

Tem um trecho do romance “O apanhador no campo de centeio” (do Salinger, outro subestimado) que diz mais ou menos o seguinte: escritor bom é aquele que faz a gente ter vontade de conversar com ele no bar. Eu sempre pensei assim. Seria um prazer conversar com o Bukowski.

Ontem resolvi ver qual é que era de um treco chamado “Substack”. É uma rede social voltada para escritores. Deixando claro: respeito mesmo quem gosta da coisa, mas achei pavoroso, desanimador. Vai ver, dei azar, mas só trombei com gente lambendo as feridas de um jeito cool ou advogando em causa própria como se ninguém fosse perceber.

Nessas horas eu vou correndo pros braços do Bukowski.