João Alvarenga
Síndrome do Imperador (parte 2)
Domingo passado, fizemos uma análise da teoria do psicopedagogo Leo Fraiman, a chamada “Síndrome do Imperador”, que trata das dificuldades que pais e professores enfrentam, atualmente, para educar crianças e adolescentes. Demos especial atenção à origem desse problema. Hoje, aprofundaremos um pouco mais nossa abordagem, com enfoque nas consequências dessa “síndrome”. Antes, porém, lembramos que Fraiman, categoricamente, defende a seguinte tese: todo problema de relacionamento começa na casa do estudante, reverbera na sala de aula e respinga na sociedade, quando a criança atinge a idade adulta. Isso porque, durante a educação dos filhos, muitos progenitores, por temerem um possível rompimento dos laços afetivos, ignoram a palavra LIMITE.
Nesse contexto, é notório que houve uma mudança drástica na educação dos filhos. Saímos do radicalismo extremo do século passado para mergulhar na permissividade absoluta dos nossos tempos. A escola teve que se ajustar a esse novo padrão. Com isso, a sociedade perdeu suas referências. Claro que os extremos não são saudáveis. Ou seja, “nem fel nem mel”, como diziam os antigos. O ideal é o diálogo e o equilíbrio dentro de casa, a partir de bons exemplos. Tanto no lar quanto na escola. Isso ajudará na formação do caráter da criança.
Afinal, após a sua formação acadêmica, terá que seguir seu próprio caminho neste mundo. Se a criança não for educada corretamente, há chances de que se torne um adolescente problemático. Na vida adulta, se sentirá o ‘rei’ do pedaço. Logo, a expressão: “Você sabe com quem está falando?”, infelizmente, está enraizada na nossa cultura. Segundo os psicólogos, esse conceito começa na casa, passa pela escola e atinge o mundo corporativo com hierarquias.
Especialistas lembram que, se a pessoa que está na chefia não tiver preparo para o cargo, poderá agir de forma despótica. Ou seja, no afã de agradar o alto escalão, poderá cometer excessos, gerando conflitos no ambiente de trabalho. Por isso, algumas empresas criaram, internamente, comissões para combater o chamado “assédio moral”, a fim de que o respeito mútuo seja a regra nº1 de convivência nas empresas. Ou seja, as palavrinhas mágicas: “com licença”, ”por favor” e “muito obrigado”, continuam valendo.
Todavia, a tal “Síndrome do Imperador” também atinge a vida pública do País. Tanto que, quando há denúncias de corrupção, como crime de peculato ou desvio de verbas públicas, o suspeito tenta, de algum modo, livrar-se do delito. Nega veementemente! Mas, as notícias, infelizmente, evidenciam uma verdade: muitos homens públicos se sentem intocáveis, como se nada pudesse atingi-los, porque se acham acima da lei. O pior é quem age desse modo, é justamente quem deveria zelar pelos bons exemplos à nação (leia-se, às novas gerações).
No entanto, é interessante observar que há outras situações do cotidiano, em que essa “síndrome” também se faz presente. Exemplos: um simples atropelamento ou, então, um acidente seguido de morte; ou, ainda, uma briga idiota num restaurante, entre outras transgressões. O problema é que o acusado não assume que está errado. Pior, tenta forjar provas ou jogar a culpa em inocentes. Afinal, faltam-lhe argumentos que justifiquem sua falta conduta. Assim, lança mão de subterfúgios esdrúxulos, como humilhar, a qualquer preço, quem está a sua frente. Isso quanto não parte para ameaças, xingamentos e até agressões físicas.
Aliás, há inúmeras reportagens que mostram o lado ridículo de quem se impõe pelo grito. O caso mais bizarro aconteceu, durante a pandemia do Covid-19, quando um desembargador, ao ser multado, na praia, porque se negava a usar máscaras conforme previa a legislação naquele momento, não só rasgou o auto de infração, como humilhou o guarda civil municipal que tentava cumprir uma norma. Como isso pegou mal, pediu desculpas, publicamente, e ficou o dito pelo não dito. Bom domingo!
João Alvarenga é professor de Redação.