João Alvarenga
Loteria da vida
Aproveitando o tema de domingo passado, em que fiz uma reflexão sobre como as religiões lidam com a morte, lancei-me, neste artigo, ao desafio de tentar entender outro assunto que inquieta a humanidade: por que o sofrimento existe no mundo? Por que temos a impressão de que uns sofrem, enquanto outros passam a vida a sorrir, como poetizou Camões em seus versos. Seria isso a loteria da vida? É o que investigaremos a seguir.
Embora esse enigma passe longe dos noticiários, as causas da dor humana sempre nos inquietam. Padres, pastores, rabinos, monges e líderes espirituais de diversos segmentos tentam desvendar, cada um a seu modo, essa incógnita.
Mas, não é tarefa fácil, porque não há única resposta para um segredo holístico, já que a dor se manifesta sobre variáveis aspectos no mundo físico e ronda o espiritual. Assim, estimado leitor, se cometer algum deslize em tal análise, releve a minha falta de profundidade diante de tamanha complexidade. No entanto, uma verdade se impõe de forma incontestável: a aflição, inevitavelmente, afeta todo o ser vivente neste planeta, tanto seres racionais quanto irracionais. A diferença sutil, como observa Santo Agostinho, filósofo da Igreja Católica, está no fato de que nós, seres humanos, “somos responsáveis pelo governo de nossas faculdades humanas”. Ou seja, temos consciência da dor, já os animais padecem sem essa percepção.
Diante disso, os adeptos do ocultismo postulam que os quatro reinos (hominal, mineral, vegetal e animal) estão sujeitos às consequências desse processo. Seja isso de menor ou maior impacto, uma vez que a própria existência carrega consigo os efeitos do desgaste natural causado pelo tempo, que é inexorável. Nesse ponto, cientistas e místicos compartilham do mesmo pensamento, já que, para ambos, a degeneração da matéria começa a partir da própria concepção. Contudo, para a ciência, tudo finda na própria matéria. Já para os gnósticos, a alma é perene.
Todavia, o que nos difere uns dos outros é o modo como lidamos com essa realidade. Há quem se resigne, ou seja, aceita tudo naturalmente; enquanto outros, por entenderem que são vítimas da má sorte, ficam indignados. Para o taoísmo, essas idiossincrasias são naturais, porque cada ser humano é um universo em si. Assim, cada um tem uma visão muito particular do porquê de passarmos, ao longo da vida — seja ela longeva ou efêmera —, por tantos perrengues, especialmente no que se refere às inúmeras doenças que se manifestam da maneira mais imprevisível possível entre todos os seres vivos.
Isso, sem falarmos nas muitas guerras que afetam o planeta, na pobreza que avança silenciosamente entre os povos, além de tantas tragédias das mais variadas proporções. Às vezes, alguém, dado ao grau de sua provação, tem a impressão de que veio ao mundo apenas para sofrer, enquanto outros não enfrentam nenhum percalço, como se o destino de cada um já estivesse traçado antes mesmo do nascimento.
A fim de atenuar essa percepção tão angustiante, as crenças religiosas, de diferentes segmentos, sustentam, de forma unânime, que não viemos neste mundo a passeio, como se a terra fosse um parque de diversão ou viver um eterno “mar de rosas”. Ou seja, pagamos um preço pela existência, seja pelo aspecto físico-degenerativo ou pelo lado religioso que entende a existência como uma oportunidade de regeneração ou reparação de danos.
Sob esse aspecto, boa parte das crenças trabalha com a ideia de que todos nós temos uma dívida que deve ser paga e que, mais cedo ou mais tarde, a cobrança chega. A isso o cristianismo chama de “pecado original”. Já a doutrina espírita denomina de “carma” ou “resgate cármico”. Já o poeta argentino Jorge Luís Borges, no alto de seu ateísmo, ao contemplar Cristo na cruz, indaga: “Por que tu sofreste, se eu sofro, agora?” A isso, Tim Maia, resignadamente responde: “... Quem sofre tem que ter algum motivo pra sonhar”. Bom domingo!
João Alvarenga é professor de redação.