Celso Ming
Como ver o recuo do desemprego
O mercado de trabalho segue mostrando vigor neste 2024. O governo Lula atribui esse desempenho ao que entende como sucesso de sua política econômica, que agora aponta para um crescimento anual do PIB próximo dos 3%. Mas esse dinamismo tem outras razões.
Convém cavoucar primeiro os resultados. O desemprego ficou em 6,8% da força de trabalho no trimestre móvel encerrado em julho. Os dados do segundo trimestre já vinham reforçando essa melhora, quando o desemprego encerrou no menor nível em décadas, nos 6,9%, com recuo em 15 das 27 unidades federativas do País.
Mas os bons resultados não se restringem à queda do desemprego. A população desocupada caiu em julho 12,8%, na comparação anual, de 8,5 milhões para 7,4 milhões. A massa de trabalhadores ocupados também avançou e encerrou o trimestre móvel de julho em 102 milhões — novo recorde da série histórica.
Esse movimento não deve estancar por aí. Para os próximos meses, como aponta o economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, a tendência é que o desemprego caia ainda mais. Novas vagas devem ser geradas no mercado formal, impulsionadas pelas médias, micro e pequenas empresas.
Outro fator que vem puxando por esse efeito tem a ver com a relativamente farta distribuição de benefícios sociais, como já apontado por esta coluna. A participação dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, na renda da população vem crescendo mais do que pela remuneração do trabalho. E isso pode estar acentuando o segmento dos nem-nem, os jovens que não estudam nem trabalham.
Não se pode, também, ignorar o uso crescente dos aplicativos que passou a garantir ocupação autônoma para segmentos crescentes da força de trabalho.
E, não menos importante, a maior demanda por mão de obra deve ser vista, também, como consequência da Reforma Trabalhista do período Temer, que reduziu a insegurança jurídica por ter transferido para os trabalhadores parte ou a totalidade dos custos legais nos casos de aventuras jurídicas ou de má-fé. Um estudo feito por pesquisadores da USP e do Insper aponta que a queda no índice de desemprego com as mudanças da reforma foi de 1,7 ponto porcentual.
O ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto adverte que é preciso cautela ao se avaliar o cenário à frente, pois os atuais números podem não passar de “voo de galinha”.
É preciso melhorar os investimentos em educação, requalificação e treinamento para reduzir o déficit de mão de obra qualificada existente no País e aumentar a produtividade do trabalho.
Celso Ming é comentarista de economia, com colaboração de Pablo Santana.