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joão Alvarenga

Por que a morte existe?

07 de Setembro de 2024 às 22:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: FREEPIK)

Quiçá, a pergunta que dá título a este artigo seja o maior enigma da humanidade, que acompanha outros dois quebra-cabeças: de onde viemos e por que estamos aqui? Desde que o mundo é mundo, dizia meu padrinho Raimundo, o ser humano se depara com essa charada existencial. Todavia, as respostas não partem de uma única vertente filosófica ou de uma só doutrina religiosa, muito menos de uma visão estritamente científico-materialista. Mais do que isso, ao longo da História, surgiram várias linhas de pensamento sobre essas questões, que postularam diferentes sentidos para a vida e a morte — os dois grandes extremos da existência humana — sem, contudo, haver convencimento unânime que desse conta de não só satisfazer tamanha curiosidade; mas aquietasse a angústia de estar aqui por um determinado tempo e, no segundo seguinte, sermos apenas “pó que retorna ao pó”, no dizer do padre Antônio Vieira.

Partindo dessa premissa, decidi investigar como as religiões lidam com aquilo que o poeta Vinicius de Morais chamou de “a indesejada das gentes”. Sim, refiro-me à morte. Pois, toda a vez que alguém muito próximo de nós parte desta para melhor, temos a impressão de que a lâmina passou perto. Ou ainda, quando um amigo da nossa geração vai embora, vem à mente a ideia de que “a fila anda”. Só não sabemos o nosso lugar nessa loteria nem quando, exatamente, seremos chamados.

Afinal, para onde vamos depois do suspiro derradeiro? Antes de partir para um enfoque religioso, faço referência à visão científica, a fim de explorar esse tema sobre vários aspectos. Assim, os cientistas são enfáticos ao afirmarem que tudo na terra é efêmero. Racionalmente, como frisava o escritor Jorge Luís Borges, tudo acaba com a morte. É mais ou menos como o astronauta norte-americano, Neil Armstrong, dizia: “Cada ser humano tem um número limitado de batimentos cardíacos”. Tudo tem um tempo contado!

Mas, e sobre nossa origem? Lamento dizer que a ciência não abraça nenhuma teoria mística. Entende que somos apenas frutos do acaso, resultado de um processo evolutivo. E quanto à morte? Não se iluda! Os cientistas também não romantizam essa parte. Quando morremos, nosso corpo alimenta os vermes. Ironicamente, o poeta simbolista, Augusto dos Anjos, já antecipava essa visão. Claro que essas respostas não confortam ninguém, principalmente no momento em que a dor da separação se torna pungente.

Por isso, as religiões vêm em nosso auxílio, a fim de confortar os que ficaram sem seus entes queridos e, ao mesmo tempo, dar esperança de salvação eterna aos que partiram. O padre Wagner Ferreira, doutor em Teologia, explica que Deus criou o homem para a eternidade; mas que a morte entrou no mundo por causa do demônio, a partir do “pecado original”. No entanto, a morte de Cristo na cruz representa o resgate da humanidade desse pecado. Assim, a pessoa que morre aguarda o retorno de Cristo para julgar os vivos e os mortos. Os evangélicos entendem que a morte é um “sono profundo”, pois como frisam as escrituras, o “morto não é cônscio de nada” e que, no dia do “Juízo Final”, prestará conta de seus atos.

Já o Budismo não trabalha com a ideia de punição, no pós-morte, pois os seguidores dessa doutrina encaram o desencarne como parte natural da existência, uma mudança de ciclo. A monja Coen Roshi, missionária do Zen Budismo no Brasil, enfatiza que a ideia de não existir mais é uma forma de advertir o homem a se encantar com a vida e a vivê-la na sua plenitude, durante o tempo em que estiver aqui, eternizando todos os momentos. Para Coen: “A vida é como um efêmero arranjo de jardim”.

Para finalizar esta análise, é mister observar que a doutrina espírita enxerga a morte como uma passagem, uma transformação do plano físico para o espiritual. Ou seja, não existe um fim em si, pois a vida segue fora da matéria, já que o espírito continua a viver em outra dimensão vibratória. Bom domingo!

João Alvarenga é professor de redação.