João Alvarenga
Deixem os mortos em paz
Os cemitérios sempre foram cenários para histórias de terror. No Romantismo do século 19, há poemas e romances que fazem que menção à última morada. Inclusive, um célebre conto de Álvares de Azevedo narra a sórdida história de um personagem necrófilo que profanava túmulos de recém-enterradas.
Todavia, fora da ficção, a realidade é bem mais tenebrosa do que podemos imaginar, pois notícias, neste matutino, dão conta de que ladrões invadem os campos santos de nossa cidade para furtar peças de metais de diversos túmulos.
Segundo matéria da jornalista Ana Cláudia Martins, os cemitérios “Da Saudade” e “Consolação” são os alvos principais dos bandidos. Sorrateiramente, os larápios de plantão roubam puxadores das gavetas, adornos dos jazigos ou pequenas molduras que envolvem as fotografias dos falecidos, além de vasos de flores.
Apurou-se que são cobiçados pequenos objetos de bronze (que imitam ouro), e também de prata, que adornam as sepulturas de algumas famílias sorocabanas. Infelizmente, a nobre intenção de homenagear os falecidos desperta a cobiça alheia, pois os adornos são roubados, deixando um vazio no coração dos enlutados.
A ousadia é tanta que as ações ocorrem mesmo durante a luz do dia. Ficou claro que os agentes de segurança não dão conta de garantir a tranquilidade desses espaços que, no passado, representavam um ambiente seguro, para que os vivos pudessem reverenciar os mortos.
Agora, pessoas suspeitas passaram a frequentar esses lugares, com abordagens indesejadas que tiram o sossego de quem tem em mente apenas rezar pelos ancestrais queridos.
Lamentavelmente, o fato não é novo e só se agrava com o passar do tempo. Na visão de especialistas, o enredo é mais do que um mero caso de polícia, trata-se de uma questão social, que se intensificou, agora, com a volta da inflação. Embora não haja justificativa para crime algum, quem não tem renda fixa tenta, de alguma forma, obter sustento de forma ilícita. O que pode ser feito? Com a palavra, os vivos, digo, as autoridades!
João Alvarenga é professor de Redação e cronista