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Celso Ming

Os choques do governo

É muita desgraça junta. Ficou mais difícil navegar. No entanto, a qualidade do piloto é avaliada não quando o mar está tranquilo, mas pelo seu comportamento no meio da borrasca

23 de Março de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: REPRODUÇÃO / INTERNET)

Celso Ming

Há quem argumente que não se pode ser tão crítico da política econômica do governo Bolsonaro, porque é preciso levar em conta os enormes choques a que foi submetida.

Vamos aos choques e, depois, à questão da qualidade da administração da economia.

O primeiro grande choque foi a Covid-19 que atingiu em cheio tanto as condições de saúde da população como as da economia. A necessidade de quarentenas paralisou o comércio, os serviços, a produção e o emprego. Os fluxos de produção e distribuição da economia mundial se desorganizaram. Os navios permaneceram nos portos, muita linha de montagem parou por falta de insumos. Sem produção, a inflação global disparou.

O segundo grande choque teve origem climática. Faltou chuva ao longo de 2020 e 2021, os reservatórios das hidrelétricas se esgotaram, foi preciso acionar termoelétricas a custos muito altos. Os preços da energia dispararam e a economia teve de enfrentar mais incertezas.

O terceiro choque sobreveio com a guerra da Ucrânia. Os preços do petróleo dispararam. Nas últimas três semanas, as cotações do barril do Brent chegaram a se aproximar dos US$ 140. No Brasil, os preços da gasolina decolaram para acima de R$ 7 por litro. Depois de cinco anos, a inflação volta aos dois dígitos. Os juros básicos (Selic) chegaram a 11,75% ao ano. Os prognósticos são de crescimento do PIB do Brasil, em 2022, oscilante em torno de zero por cento.

As sanções impostas à Rússia voltaram a desorganizar os fluxos de produção e distribuição de mercadorias e serviços. A inflação global entrou em escalada. Os grandes bancos centrais passaram a puxar pelos juros a atividade econômica global, que mal se recuperava dos impactos da Covid, voltou a derrapar.

É muita desgraça junta. Ficou mais difícil navegar. No entanto, a qualidade do piloto é avaliada não quando o mar está tranquilo, mas pelo seu comportamento no meio da borrasca. E é o que tivemos e o que temos. A Covid encontrou um presidente negacionista, contrário ao isolamento social e às vacinas. Ainda assim, o Brasil figura entre os países mais vacinados.

O enfrentamento da crise energética consistiu apenas na distribuição de contas mais altas ao consumidor. Não contou com uma política de racionalização do consumo. E só não foi pior porque ao longo do período, os preços do petróleo se mantiveram achatados. O governo não aproveitou a oportunidade para reforçar os investimentos em energia renovável.

O presidente ignorou as advertências e, na antevéspera da eclosão da guerra, fez mais do que simples gestos de aproximação com o presidente Putin. A maneira como enfrenta o choque do petróleo é confusa. Embora agressivamente contrário à política de preços da Petrobras, não foi capaz, até agora, de encontrar substitutivo e se contenta em fritar a empresa e o seu presidente, o general Joaquim Silva e Luna.

Celso Ming é jornalista e comentarista de economia