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Dom Julio Endi Akamine

Contemplando o presépio: os Reis Magos

Diante do presépio, reconheçamos em nós essa inquietação interior de busca da verdade

09 de Janeiro de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Dom Julio Endi Akamine
Dom Julio Endi Akamine (Crédito: Manuel Garcia (11/7/2019))

Dom Julio Endi Akamine

Os Reis Magos existiram realmente ou eles fazem parte de um relato mais mítico do que histórico? Qual é o fruto espiritual que podemos colher na contemplação desses personagens do presépio e do Evangelho de Mateus (2,1-12)?

Os romanos e os judeus não concordavam em quase nada. Uma das poucas coisas em que havia concordância entre eles era no desprezo que tinham pelos magos do Oriente. Eles os consideravam embusteiros e sedutores. Plínio, o Velho, que foi contemporâneo de Jesus, julgava a doutrina dos magos demasiadamente absurda e repulsiva, cheia de fantasias sedutoras para enganar, fascinar e dominar a mente humana. Também o Talmude dos judeus reconhecia a força de sedução dos magos e proibia os judeus de buscar conhecimento neles.

Essa visão claramente pejorativa revela, por outro lado, o fascínio que a doutrina dos magos exercia nas pessoas religiosas da época. Afinal, se os judeus não se sentissem atraídos pela sabedoria dos magos, não teriam sido necessárias as proibições da Bíblia e do Talmude.

É preciso reconhecer que os magos também eram atraídos pelas profecias judaicas e que conheciam as Escrituras dos judeus. É razoavelmente verossímil que alguns deles tivessem interesse em conhecer o Deus de Israel e fossem fascinados pela sua Escritura Sagrada.

Estudos históricos e arqueológicos mostraram que os “magos” eram membros da casta sacerdotal persa e dirigentes de religião. Em certas circunstâncias exerciam grande influência política sobre os dirigentes das nações que eram considerados reis. Daí que sejam chamados também de “Reis Magos”. Há, portanto, uma ambivalência no termo “mago” que realça a ambivalência da dimensão religiosa e política que eles representam. Os estudos arqueológicos revelaram também que a Babilônia tinha sido um centro importante de astronomia/astrologia e que, na época de Jesus, havia um pequeno grupo de astrônomos/astrólogos que se dedicavam a observar os astros celestes e a calcular os seus movimentos.

Evidentemente não bastava somente observar o céu, para sair em busca do “recém-nascido rei dos judeus” (2,2), era preciso também algum contato com as profecias judaicas. Ora, uma profecia não judaica, feita por um personagem histórico e que foi conservada na Escritura dos judeus, serviu de ponte entre a observação astronômica e as esperanças da chegada do “rei dos judeus”. Foi a profecia de Balaão que fez com que o aparecimento de uma estrela se tornasse uma mensagem para os magos. Eis a profecia:

“Vejo-o, mas não é para já, contemplo-o, mas não está perto: uma estrela surge em Jacó, um cetro se levanta de Israel, quebra as têmporas de Moab e destrói todos os filhos de Set. Vê, Edom será sua posse, posse sua será seu inimigo; Seir, e Israel fará proezas. Um dominador sairá de Jacó e aniquilará os sobreviventes da cidade” (Nm 24, 17-19).

É bem provável que os magos persas tenham tido contato com as Escrituras judaicas, especialmente com a profecia de Balaão. Talvez justamente por isso estivessem observando o céu na expectativa de encontrar um astro desse tipo.

Como se pode ver os magos são estudiosos e pesquisadores do céu. Na ciência deles razão e fé não se distinguem; astronomia é o mesmo que astrologia. Exatamente por causa dessa mescla entre ciência e religião, a contemplação dos magos no presépio nos causa surpresa e admiração. Eles fizeram o longo caminho até Cristo ultrapassando a própria ciência e religião. Eles eram movidos por uma inquietação interior e uma esperança de encontrar a verdadeira estrela da Salvação. Chegaram até Cristo movidos por uma sabedoria que os levou à superação da astrologia e da astronomia. Há no interior desses homens uma dinâmica que é intrínseca à ciência e às religiões: a busca e a sede de verdade. A viagem física do Oriente até Cristo representa a realização histórica do movimento interior das religiões e da razão humana ao encontro da verdade.

Tanto a viagem interior quanto o deslocamento físico têm uma conclusão feliz porque, no fim das contas, Deus deseja que o homem encontre a verdade. A Epifania do Senhor revela exatamente esse desígnio de salvação: Deus deseja ser encontrado e pôs no interior do ser humano, assim como fez aparecer a estrela no céu, uma sede que só pode ser saciada pela verdade.

O encontro com o Senhor purifica as religiões. Esse é o significado espiritual dos presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra. Orígenes explicou o significado dos presentes de maneira sucinta: “Ouro, para o rei; mirra, para o ser mortal; e incenso, para Deus”. Os magos devolvem assim a Deus o que é de Deus. O ouro, que tinha sido adorado como ídolo, é agora dado a Deus. Aquilo que tinha sido adorado em imagens fundidas, ao serem oferecidas ao menino Jesus, é usado, de agora em diante, para adorar somente a Deus.

No entanto, o presente mais precioso, que os magos oferecem, é a si mesmos. Como representantes dos sábios e dos cientistas que buscam de coração sincero a Deus e dos adeptos das religiões que desejam encontrar a verdadeira salvação, eles trazem para o recém-nascido Deus todo o cosmos que tanto haviam observado e se esforçado para entender e que equivocadamente tinham adorado. Assim os adoradores dos astros, se convertem em adoradores de Cristo.

Diante do presépio, reconheçamos em nós essa inquietação interior de busca da verdade. Façamos, com os magos, a viagem interior até Cristo, estrela da nossa salvação e da do mundo inteiro.

Para concluir. Neste dia da Festa do Batismo do Senhor, dia 9 de janeiro, devemos desmontar os nossos presépios. Encerramos também as meditações diante do presépio.

Dom Julio Endi Akamine é arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Sorocaba