Buscar no Cruzeiro

Buscar

Terraço-jardim: um teto ao meio ambiente

Artigo escrito por Marcelo Augusto Paiva Pereira

14 de Dezembro de 2021 às 00:01
Marcelo Augusto Paiva Pereira.
Marcelo Augusto Paiva Pereira. (Crédito: Arquivo Pessoal )

O meio ambiente natural tem sido objeto de preocupações ecológicas pelos poderes públicos e pela sociedade, tanto em nosso país quanto em outros. Urge pôr fim ao desmatamento e recuperar a vegetação, inclusive a urbana. Enseja, pois, alguns comentários que abaixo seguem.

Ao tempo em que se consolidava a corrente artística do modernismo, Le Corbusier apresentou, em 1926, os cinco pilares (ou princípios) da arquitetura modernista: a) pilotis (palafitas); b) planta livre; c) fachada livre; d) janela em fita; e) terraço-jardim. Destes, merece maior atenção o último.

O terraço-jardim (ou teto-jardim) é o espaço de lazer sobre a laje do último pavimento, possui áreas verdes e capacitado a suportar as intempéries climáticas e os efeitos da umidade (infiltração). É exemplo o Edifício Gustavo Capanema, construído no Rio de Janeiro (RJ), no período de 1937 a 1945, para ser a sede do Ministério da Educação e Saúde.

O projeto foi conduzido por Lúcio Costa e teve a participação de vários arquitetos, dentre os quais Oscar Niemeyer e o paisagista Roberto Burle Marx, que desenhou o terraço-jardim. Referido edifício foi projetado em observância aos cinco pilares, é referência do modelo proposto por Le Corbusier e marco da arquitetura modernista no Brasil.

Se às grandes obras atuais for aplicado o princípio do terraço-jardim, poderá ser repensado em benefício da preservação do meio ambiente natural, ainda que seu projeto não compense toda a área vegetal eliminada à implantação das obras. Nesta hipótese outras áreas -- contíguas ou não -- deverão ser recuperadas em favor do meio ambiente natural.

Em áreas urbanas consolidadas, referido projeto poderá ser implantado na maior parte da laje de algum grande edifício enquanto ocupará a menor parte por salas da administração e restaurantes aos moradores e trabalhadores do entorno. No interesse público e privado a laje terá outra destinação e recuperar (ainda que parcialmente) o meio ambiente natural mediante o terraço-jardim, na medida do projeto e na razão do uso racional do solo urbano quanto à área verde a ser implantada.

Ao se desenha-lo e implanta-lo, oferecer-se-á um novo espaço de lazer aos habitantes e aos frequentadores do entorno, melhorará a qualidade do meio ambiente artificial, reduzirá a poluição do ambiente, terá relido a arquitetura modernista de Le Corbusier e apresentado um conceito de arquitetura e urbanismo recuperado do passado e reexaminado para o presente e futuro.

O edifício que contiver o terraço-jardim agregará valor a ele, à mobilidade, ao lazer e ao espaço urbano do entorno, procedente de uma releitura modernista em benefício da urbanidade, da sociedade e do meio ambiente natural, cujos pilares (ou princípios) -- após um século -- ainda servem de fonte.

É um teto ao meio ambiente porque dele faz o espaço urbano que se recuperou. Nada a mais.

Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.