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O som e a peste

Artigo escrito por Leandro Karnal

21 de Novembro de 2021 às 11:48
Cruzeiro do Sul [email protected]
O som e a peste
O som e a peste (Crédito: Divulgação)

O maior drama da pandemia no Brasil é o número absurdo de mais de 600 mil mortes. O segundo efeito nefasto foi a crise econômica e o aumento da miséria, inclusive da fome. O terceiro foi menos debatido e terá efeitos enormes a médio e longo prazo: a catástrofe na área cultural.

O desastre foi sobre todo o setor cultural. Atrás de cada nome fulgurante que possuía reservas para a crise, havia uma multidão de nomes quase invisíveis, iluminadores, cenógrafos, auxiliares de produção, pessoal da bilheteria, divulgadores e tantos outros que viviam mês a mês do que recebiam. De repente: nada mais entrava...

Falarei mais da Osesp, pela importância da orquestra e porque sou conselheiro dela. Tenho menos conhecimento e nenhuma autoridade para tratar dos múltiplos setores que também enfrentaram dificuldades. Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp, em artigo para a revista Piauí (edição 175, abril de 2021), traçou um itinerário da luta quase épica. Um regente inglês não pode vir: os voos do Reino Unido haviam sido cancelados. O solista testou positivo. A Sala São Paulo foi fechada. Depois, foi reaberta, mas com limites enormes de público.

Tanto Arthur como Marcelo Lopes demonstraram uma resiliência acima do normal. Todos os trabalhadores são dignos e toda ocupação honesta é válida. Porém, minha querida leitora e meu estimado leitor: algumas funções profissionais são mais fáceis de ser substituídas do que outras. É complexo encontrar um novo pianista que tenha o difícil Concerto para Piano nº 2 de Shostakovich estudado no seu repertório, agenda livre e que esteja em algum ponto que permita um voo até São Paulo. Está mais fácil substituir ministro de Estado do que solistas.

As orquestras planejam sua temporada de concertos (32 no caso da Osesp) com anos de antecedência. Como escreveu Arthur Nestrovski: “Seria o eufemismo dos eufemismos dizer que tudo isso exige planejamento. A capacidade de planejar e a tradição de honrar o que foi planejado são, aliás, dois fatores dos muitos que dão credibilidade a uma instituição cultural. Alta qualidade artística será sempre o mais importante, mas cumprir acordos, ter uma produção que funciona e ser bom pagador são qualidades básicas. Não mudar de ideia no meio do caminho, também. Era assim que as coisas funcionavam no passado pré-pandêmico, antes da avalanche de pedras que agora obstrui diariamente a vida de nossas retinas tão fatigadas”.

O novo holofote incidiu na adaptação virtual. Exemplo? Houve 53 transmissões dos concertos digitais 2020/2021. O YouTube Osesp, de 14 de março de 2020 a 8 de agosto de 2021: 1.788.750 views, 212.800 horas assistidas; Facebook Osesp, de 14 de março de 2020 a 8 de agosto de 2021: 2.930.626 pessoas alcançadas e 752.498 engajadas. Os concertos eram gravados desde 2011 e dez deles foram recuperados do arquivo para exibição nas noites de domingo. Houve 56 vídeos publicados dos músicos fazendo música em suas casas. Foram realizadas edições virtuais do projeto Falando de Música que analisava e debatia os programas. Surgiu o projeto Semibreve, com os músicos da Osesp respondendo a perguntas do público. Oito das nove sinfonias de Beethoven foram ao ar, comentadas por Thierry Fisher.

E o famoso Festival de Campos do Jordão que a Osesp administra? Após o hiato de 2020, a 51ª edição aconteceu essencialmente por meio de plataformas digitais -- o público presente no Auditório Cláudio Santoro (39 apresentações) e na Sala São Paulo (quatro apresentações) foi reduzido devido aos protocolos de segurança. Estive em um evento na Mantiqueira. O módulo pedagógico também foi afetado, com os alunos se revezando entre o presencial e o virtual.

Nesse modelo híbrido, foram ministradas mais de 900 horas/aula. Além disso, foram realizadas 20 masterclasses virtuais com grandes nomes da música de concerto universal, como a pianista Yulianna Avdeeva, a flautista Silvia Careddu (Hanns Eisler e da Barenboim-Said Akademie), o violinista Boris Brovtsyn (solista internacional), o contrabaixista Martin Heinze (Filarmônica de Berlim) e o trombonista Joe Alessi (Filarmônica de Nova York). Em plena crise econômica, sanitária e política, o público e os jovens instrumentistas foram agraciados com trabalhos ousados e estratégicos.

O que eu testemunhei como conselheiro da Osesp em 2020 e 2021 foi uma jornada emocionante de adaptação e de esforço. Citei os nomes extraordinários do Arthur e do Marcelo. Há um grupo enorme junto a eles e, principalmente, os músicos profissionais da sinfônica. De muitas nacionalidades, todos tiveram o estresse natural do transe que ainda vivemos. Insegurança, medo, angústia pelo futuro e questionamento sobre tanta dedicação de anos e anos de estudos e de práticas agora esbarrando neste momento aziago e sombrio.

Não sei quando sairemos da escassez. Não consigo ver oásis neste deserto de estadistas. Sei apenas que, para atravessar a tempestade, necessitamos de música. Precisaremos de mais música para saber o que fazer no novo momento. Imagino a Sala São Paulo como uma arca de Noé atravessando uma tragédia mundial.

Que os variados seres a bordo possam chegar a um monte tranquilo e repovoarem a terra da música. Minha esperança, hoje, reverbera notas musicais. Dia 22 de novembro é Dia do Músico. Parabéns a todas e a todos que pensam, realizam, lutam e fazem sons em meio à peste. Como Arthur Nestrovski narrou em um diálogo: “Música acima de tudo e Beethoven acima de todos”. O resto é caco dissonante.

Leandro Karnal é historiador, escritor e membro da Academia Paulista de Letras