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Gumercindo Gonçalves e suas gerações em Sorocaba

Artigo escrito por Vanderlei Testa

09 de Novembro de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: ARTE: VT)

A evolução da tecnologia digital é recente. A internet surgiu comercialmente em 1969 nos Estados Unidos. Se comparada aos anos de 1921, há 100 anos, “vivíamos na era da pedra”. Nos anos de 1920, as máquinas manuais e registradoras nos caixas do comércio eram pouquíssimas no Brasil. Estou lendo uma publicação do início do século 20, em que um fornecedor, Casa Pratt, do Rio de Janeiro, era especializado em máquinas registradoras da marca National. Existiam no Brasil, apenas 3 mil caixas registradoras no comércio. Em Sorocaba, a primeira chegou ao comerciante Gumercindo Gonçalves. Custava a partir de 400 réis. O texto do anúncio cita “machina” que oferece aos fregueses um “coupom”. A neta do saudoso empreendedor do início nos anos 1900, Sônia Maria Gonçalves, relatou-me alguns históricos fatos da família.

O Gumercindo chegou ao Brasil, vindo da Espanha, com apenas nove anos de idade. O irmão, Marçal, foi o seu companheiro adulto na chegada ao Brasil. Já contei em vários artigos a arrojada visão de negócios dos espanhóis no País e em Sorocaba. Há uma garra nos imigrantes em vencer na vida, atuando em empreendedorismo, que nada impede os seus sonhos. Neste caso específico, Marçal Gonçalves foi à busca de plantações de laranja na região e em Sorocaba, visando à exportação das frutas cítricas.

A família Gonçalves tinha ímpeto para negócios no comércio varejista. Investiu em pontos estratégicos de Sorocaba. A história comercial da família na cidade começou em uma Loja Gonçalves, na esquina da rua XV de novembro, em frente à antiga loja de ferragens dos irmãos Delosso. Outra iniciativa foi na avenida São Paulo, número 1, ao lado da antiga ponte que ligava a vila que chamamos de Além Ponte ao centro da cidade.

Sorocaba tinha sítios e fazendas em toda a periferia da zona central. Grandes áreas nativas para plantações eram usadas por seus proprietários para moradia e cultivo de laranjas. Há 40 anos, cheguei a frequentar uma dessas fazendas, de nome Sítio São Paulo, onde hoje existe o residencial Saint Claire. Sei, também, por meio de Antonio Barbero Neto, que o seu pai, saudoso empresário da Teba, Renato Barbero, morava em uma chácara com alqueires de terra nos altos da avenida São Paulo, vizinho dos Gonçalves.

Gumercindo Gonçalves foi um dos desbravadores espanhóis de uma fazenda na região Leste da cidade. A Fazenda Gonçalves tinha uma das maiores plantações de laranja lima de Sorocaba. Para ter uma ideia da grandeza geográfica das terras e dos seus laranjais, basta apenas ver o que é o Jardim Gonçalves. Essa localidade muito conhecida, onde atualmente residem milhares de sorocabanos em edifícios e casas, na época, imagino que equivaleriam a dezenas de alqueires paulistas. Na partilha da área aos filhos, surgiram posteriormente novos empreendimentos no local, como, por exemplo, o residencial Rancho Dirce, área que integrava a fazenda.

Sônia Gonçalves sente orgulho de sua descendência, como neta de Gumercindo Gonçalves. O testemunho de vida do avô, reconhecido em homenagens à sua memória como cidadão emérito na cidade, ficou registrado para sempre na família, como nomes de rua, vilas e escolas. Aquele menino Gumercindo, de nove anos de idade, que chegou ao Brasil em 1870, no final do século 19, navegou no sucesso pelas conquistas de sua vida. Gumercindo Gonçalves partiu à eternidade, com 75 anos de idade, no dia 17 de novembro de 1949. Um vitorioso, que conquistou com sua família, esposa e seis filhos, o bem maior do respeito, educação, trabalho e integridade. Católico atuante nos princípios cristãos de ajudar ao próximo, Gumercindo é lembrado pela neta, por suas doações à Irmandade da Santa Casa de Sorocaba e ajuda às instituições de benemerência da cidade e do Brasil. A seca no Nordeste tocava o seu coração e, todos os anos, organizava ajuda aos moradores carentes dessa região do País.

Sônia Maria Gonçalves é filha do professor Altamir Gonçalves, um dos filhos de Gumercindo e de dona Adília do Amaral Gonçalves. O saudoso mestre Altamir se destacou no ensino em escolas de Sorocaba. Ele tem o seu nome na Escola Estadual Professor Altamir Gonçalves, no Jardim Bermejo. A filha seguiu a profissão do pai como professora da rede municipal de ensino. Sônia Maria Gonçalves nasceu para ser comunicativa em todos os ambientes que frequenta. Desde criança, ela gostava muito de conversar e, curiosa, prestava atenção em tudo ao seu redor. Estudou no colégio Ciências e Letras, turma de 1968. Foi aluna na Universidade Estadual de São Paulo, Universidade São Luiz, Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativa de Sorocaba, Faculdade de Direito (Fadi). Sônia tem presença constante nas Colunas Sociais da imprensa sorocabana. Sua atuação em eventos sociais da comunidade a leva ao destaque por ter atuado com o seu programa de televisão na NET “Giro Social”. Entrevistava as personalidades e promovia as entidades em seus objetivos sociais. Fazendo aqui no artigo um “giro social” nas suas desprendidas atuações, destaco a Sonia Gonçalves em desfilar de fantasias expressivas em alta costura e criatividade, na avenida e nos clubes da cidade. Ela participou da vida pública e política de Sorocaba.

Muitas vezes eu via e admirava a voluntária fotógrafa Sônia em almoços beneficentes, como nas promoções da Catedral Metropolitana. Ela é mãe do Mário Augusto. Sônia nasceu no dia 21 de maio, signo de gêmeos. Os especialistas definem quem nasce neste signo como pessoas curiosas e bem humoradas. Costuma fazer amigos sem grandes dificuldades. Tem uma verdadeira vocação para manter um círculo social diverso, com todas as tribos possíveis como ela diz. Dois em um? Geminianos e geminianas podem ter uma personalidade versátil, que se adapta a diversas formas de pensamento e podem transitar tranquilamente por dois lados de uma questão. Acredito que a Sônia Maria Gonçalves traz muito dessas qualidades às suas centenas de amigos e amigas, como faz nas campanhas da Liga do Câncer em Sorocaba.

Vanderlei Testa ([email protected]) é jornalista e publicitário. Escreve às terças-feiras no Jornal Cruzeiro do Sul.