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A afetividade no contexto escolar em tempos de pandemia

Artigo escrito por Antonia Duarte e Denise Lemos Gomes Luz

13 de Agosto de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: PEDRO NEGRÃO (01/2/2021))

A afetividade tem uma concepção ampla, que abrange a emoção, como objeto orgânico e motor (condutas que apontam o grau de tensão e relaxamento), os sentimentos, como componente cognitivo e representacional, e a comunicação sendo o elemento expressivo.

No contexto escolar, a emoção assume a função de dar alertas sobre o educando, através das expressões de seu corpo, suas atitudes, sua comunicação e seu comportamento. Assim, suas emoções explicitam sua disposição frente às demandas impostas pelo educador ou pelo cotidiano escolar.

Sendo assim, quando falamos em afetividade, estamos também nos referindo a emoções e a sentimentos.

Henri Wallon (filosofo, médico e psicólogo, considerado pioneiro na defesa do ensino integral) é atualmente o principal autor no que se refere à afetividade no contexto educacional, seus estudos defenderam que o desenvolvimento tem como base a integração afetiva-cognitiva-motora, superando a dicotomia entre razão e emoção e, assim, possibilitando a análise do papel da afetividade no campo psíquico e de como sua expressão interfere no processo ensino-aprendizagem.

Estes estudos foram conduzidos com atenção na inteligência e no desenvolvimento infantil integral, proferindo críticas às concepções que limitavam a uma única dimensão do desenvolvimento humano. A afetividade, para Wallon, é tida como uma linguagem anterior a linguagem, pois o ser humano se comunica e interage com o outro desde sempre, por causa da sua genética social e evolutiva. Ele dispôs em seu livro “As Origens do Caráter na Criança” que: “O lugar que ocupam as emoções no comportamento da criança, a influência que continuam a exercer sobre o do adulto, abertamente ou em surdina, não é, pois, um simples acidente, uma simples manifestação de desordem.”

Noutra perspectiva, os estudos de Lev Vigotski (representante da Psicologia Histórico-Cultural) contribuíram para entender que o processo de ensino-aprendizagem deve abranger as múltiplas influências apontadas por ele, de forma que a educação escolar venha assumir um caráter mediador no percurso de desenvolvimento de todos os seres humanos na sociedade.

Atualmente, os desafios encontrados na escola para prosseguir trabalhando o currículo formal em conjunto com a sua bagagem afetiva têm sido enormes, devido à atual pandemia e sua demanda pelo isolamento social.

Sobre isso, Isabel Alarcão, doutora em Educação e autora que estuda a formação docente desde 1974, dispõe que: “Somente a reflexão e o diálogo vão fortalecer a concepção da Educação como uma tarefa que exige a complementaridade de saberes, o respeito pelos conhecimentos do outro e o reconhecimento dos próprios limites”.

Não é a primeira vez que a educação sofre grandes impactos, grandes tragédias foram enfrentadas ao longo da história, e a afetividade e seu papel na educação se evidenciaram a partir dessas.

Saber que a escola já enfrentou crises como essa no passado, como por exemplo, a gripe espanhola, torna crível que logo a educação irá se reorganizar e sua estrutura será formada pelos laços afetivos mantidos através da educação ao logo desta pandemia.

O papel afetivo que a escola presencial desenvolve através de seu espaço único, que propicia as mais diversas relações, continuará sendo insubstituível, como sempre foi, mas talvez o olhar da comunidade e de todos que fazem parte do contexto escolar mude; e esperamos que essa mudança, no sentido de uma maior percepção de sua importância, o que poderá contribuir para que o “novo normal”, no âmbito educacional, seja um pouco mais positiva.

Antonia Duarte, aluna do curso de Pedagogia da Uniso.

Professora Denise Lemos Gomes Luz, doutora em Educação, supervisora de Ensino do Estado de São Paulo aposentada, coordenadora do curso de Pedagogia da Uniso ([email protected])