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De pais e planos

Artigo escrito por Edgard Steffen

07 de Agosto de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: REPRODUÇÃO / INTERNET)

Pai Nosso que estás no céu...
(Oração didática ensinada por Jesus)

Guinado quase por acaso à condição de cronista -- menor, mas portador de idade maior entre os que ocupam a função neste jornal -- preocupam-me a repetição dos temas, o escorregar no politicamente incorreto ou desapercebida contribuição para divulgar inverdades. Meus últimos textos revelaram a insegurança. Consola-me não ser caso isolado entre os que se aventuram a expressar vivências e opiniões em crônicas e artigos. Conforta-me saber que o enciclopédico professor e filósofo Leandro Karnal tem dúvidas, conforme confessou em crônica recente. Quando elabora seus textos, precisa escolher frases a podar para, sem prejuízo da mensagem, encaixá-los no limitado espaço. Encoraja-me a leitura de Roberto Da Matta, cronista de 85 anos, voltando ao jornal após merecido descanso*: “Descobrir sobre o que escrever é a dúvida letal dos que vivem escrevendo e escrevem para viver”.

Reporto-me às Olimpíadas de Tóquio. A mídia cumpre seu papel de exaltar competidores heroicos, medalhistas ou não. Existem heróis fora das câmaras e microfones. Envergonha-me queixar das dificuldades criativas quando anciãos, com idade superior à minha, trabalham física e intelectualmente nos bastidores. Orientam e ajudam delegações e turistas. Seu único pagamento é a satisfação em sentirem-se úteis. O Japão respeita muito os idosos. O pai (e o avô) são reverenciados no grupo familiar.

Assistindo ao jogo do meu Timão, estranhei a camisa dos jogadores. Demorei perceber que, em homenagem ao Dia dos Pais, as camisas estampavam antropônimos dos respectivos genitores. Alguns exibiam designação feminina. Muito comum em nossos dias mulheres chefes de família.

Lembrei-me da crônica onde, baseado num e-mail de Pedro Tortello, comentei a situação de John Lennon em relação aos filhos de seus dois casamentos. Com Cynthia teve Julian. Com Yoko Ono teve Sean. Na efervescência dos anos Beatles, Lennon negligenciou e afastou-se de Julian. Auto-exilado nos USA, arrependido por distanciar-se do primogênito, virou pae/mãe de Sean. Yoko cuidava dos negócios.

A canção Beautifull boy (Darling boy), expressa seu amor por Sean.

But I guess we’ll both,
(Mas eu espero que nós dois)
Just have to be patient,
(Devemos ser pacientes)
Yes it’s a long way to go,
(Sim, há um grande caminho a percorrer)
But in the meantime,
(Mas, enquanto isso)
Before you cross the street,
(Antes de você seguir)
Take my hand, (Segure minha mão)
Life is just what happens to you,
(A vida e aquilo que acontece com você)
While you’re busy making other plans,
(Enquanto você se ocupa fazendo outros planos).

No livro “Pai Nosso uma leitura judaica da oração de Jesus” ** o rabino Phillippe Haddad traz um enfoque sobre a figura paterna. Após relatar os oito nomes que a Torá usa para designar o Eterno, analisa a escolha feita por Jesus ao ensinar seus discípulos a orar. “Pai” para iniciar a oração e “nosso” para demonstrar que ela é comunitária.

O rabino convida o leitor a abrir um dicionário hebraico. A primeira palavra que aparece é a junção das letras alef e bet. Significado? -- Pai. Aquele que ensina.

Neste dia especial, à cabeceira da mesa, você que recebeu a bênção da paternidade agradeça, ore e medite sobre o que a principal oração cristã ensina. Nos dias restantes, enquanto faz planos, ensine seus filhos pelo exemplo.

Feliz Dia dos Pais!

(*) Roberto Da Matta A volta do velho Estadão 04/08/2021, pag. H5

(**) Phillippe Haddad Pai Nosso Uma leitura judaica da oração de Jesus 2ª edição, 2018 Fons Sapientiae

Edgard Steffen ([email protected]) é médico, escritor e membro da Academia Sorocabana de Letras (ASL).