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Filmes da Netflix: ‘No vale das sombras’ (Parte 2 de 4)

Artigo escrito por Nildo Benedetti

30 de Julho de 2021 às 00:01
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Freud escreveu sobre o comportamento do ser humano no morticínio da Primeira Guerra Mundial.
Freud escreveu sobre o comportamento do ser humano no morticínio da Primeira Guerra Mundial. (Crédito: DIVULGAÇÃO )

Freud referiu-se à guerra em vários textos e citarei três dos mais importantes. Em 1932 escreveu “Por que a guerra?”, uma carta aberta a Albert Einstein. Anteriormente havia publicado “Reflexões para os tempos de guerra e morte” e “Sobre a Transitoriedade”, ambos de 1915. Com sua habilidade literária, descreveu neste último as consequências materiais e psicológicas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918):

“Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes (...). Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis”.

Essas palavras poderiam ser aplicadas aos sangrentos conflitos dos séculos 20 e 21 e o do Iraque está entre eles.

Freud referiu-se à baixa moral e ética revelada pelos Estados -- mesmo os altamente civilizados -- nas relações com Estados do mundo exterior, principalmente nas guerras. Os artefatos mais letais e sofisticados são mobilizados para impingir o maior número possível de danos materiais e mortes ao inimigo, sejam crianças, sejam adultos civis ou soldados. Ao mesmo tempo, internamente, esses mesmos Estados exigem de seus habitantes altos padrões morais para impedi-los de realizar atos que seriam contrários aos que são exigidos em sociedades civilizadas.

Quando o indivíduo participa de uma guerra, toma o Estado como modelo e os impedimentos que determinam o seu comportamento social se afrouxam. Ele passa a agir conforme se espera dele como soldado. Verifica-se então a liberação das suas piores paixões e passa a executar atos de crueldade, fraude, traição e barbárie que normalmente não praticariam em tempo de paz.

A constatação desta realidade poderia despertar nosso sentimento de desilusão com respeito à moralidade do ser humano. Mas o fato é que a diferença radical de comportamento dos indivíduos na paz e na guerra não deve surpreender. Na verdade, diz Freud, não existe a erradicação do mal. Raramente um ser humano é totalmente bom ou mau, porque via de regra ele é bom em certas circunstâncias e indiscutivelmente mau em outras. Por isso, o desapontamento a respeito do comportamento incivilizado dos soldados durante a guerra do Iraque é injustificado, porque baseou-se numa ilusão sobre a psicologia do ser humano. “Na realidade, nossos concidadãos não decaíram tanto quanto temíamos porque nunca subiram tanto quanto acreditávamos”, escreveu Freud sobre a Primeira Guerra Mundial. E completou escrevendo que quando Estados e coletividade de indivíduos mutuamente cancelam as restrições morais, estimulam as pessoas a se afastarem momentaneamente da constante pressão da civilização e a concederem uma satisfação temporária às pulsões destrutivas.

Continua na próxima semana

Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec.

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