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Filmes da Netflix: ‘M8 - Quando a morte socorre a vida’

Artigo escrito por Nildo Benedetti

21 de Maio de 2021 às 00:01
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Maurício (Juan Paiva) com a namorada.
Maurício (Juan Paiva) com a namorada. (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Na semana passada escrevi nesta coluna sobre “American son”, que trata da questão racial nos Estados Unidos. Este filme de 2019 do brasileiro Jeferson De trata do mesmo assunto, mas o cenário é o do Rio de Janeiro.

Maurício é o único estudante afrodescendente de sua turma na Universidade, onde conseguiu admissão graças à política de cotas. O filme gira em torno da tentativa de Maurício de dar sepultura digna a M8, um dos cadáveres de negros usados nas aulas de anatomia.

O filme tem o mérito de evidenciar o racismo contra o negro, tanto de parte de brancos como de parte dos próprios negros. Mostra também que a maior parte dos alunos de universidades mais concorridas vêm de classes econômicas mais altas, graças à possibilidade de cursar escolas privadas. Infelizmente, porém, divide seus 84 minutos de duração com fatos e personagens que pouco ou nada têm a ver com o tema central.

Embora reconhecendo a complexidade do tema, gostaria de citar alguns aspectos que, na minha opinião, um filme sobre racismo brasileiro deveria levantar.

O Brasil assimilou europeus e asiáticos que aqui aportaram a partir do final do século 19 e, como musicou Villa-Lobos, tornou-se “um paraíso para o estrangeiro amigo”. O filme poderia mostrar a enorme assimetria do comportamento da população com respeito a estrangeiros de um lado e a afrodescendentes de outro.

O ódio racial confronta diretamente a suposta religiosidade cristã brasileira. Os ensinamentos de Cristo são de amor ao próximo, independentemente de etnia, sexualidade condição social etc. O filme aponta apenas para nosso sincretismo religioso e declara uma tese que me parece duvidosa, a da nossa mentalidade liberal com respeito à homossexualidade.

A política de relações raciais adotada após a abolição da escravatura teve consequências devastadoras para os escravos e seus descendentes, que hoje compõe a maior parte da população pobre ou miserável. Jessé Souza em “A elite do atraso”, afirma que os pobres, com todos os tons de cor de pele, herdaram o ódio e desprezo que os escravos negros detinham. O ódio ao pobre, ainda que característica da sociedade brasileira, não é tratado no filme.

O brasileiro verdadeiramente patriota deveria amar o Brasil e tudo que nele está contido, incluindo negros e índios que são partes da nossa formação étnica. Fantasiar-se de verde-amarelo e espumar ódio contra compatriotas que pensam ou são diferentes não passa de oportunismo. O filme não se ocupa desse paradoxo.

O ódio racial não encontra qualquer justificativa científica na biologia e Maurício, como estudante de medicina, deveria propagar essa noção. Embora Salomão, médico e branco, nutre evidente simpatia por Maurício e sua mãe, o fato é que racismo se manifesta em todas as categorias profissionais, incluindo entre os médicos. Vale lembrar que, durante a vigência do nazismo na Alemanha, quase metade deles era filiada ao partido que exterminou milhões de deficientes físicos e mentais, judeus, ciganos, habitantes do Leste Europeu (principalmente russos e poloneses), amparados na ridícula e prestigiosa “ciência” da Eugenia, que pretendia eliminar as “anomalias humanas” para que um novo mundo surgisse.

Na próxima semana escreverei sobre “A ilha do medo”.

Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec.

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