Buscar no Cruzeiro

Buscar

Entre filhos e filhotes

Artigo escrito por Leandro Karnal

09 de Maio de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Imagem ilustrativa.
Imagem ilustrativa. (Crédito: REPRODUÇÃO / INTERNET)

A hoje lendária rainha Vitória foi uma grande soberana e uma péssima mãe. Todo seu amor foi dirigido ao marido Albert, a quem amou com paixão em vida e veneração quase obsessiva após a morte. Representou bem a coroa britânica como chefe de Estado no apogeu do imperialismo do século 19. Tal como sua trineta Elizabeth II, foi uma referência de comportamento moderado e de etiqueta formal. Vitória construiu e Elizabeth aprimorou a monarca como referência moral e, afinal, como chefe da Igreja.

Voltemos à “fraqueza”: Vitória foi uma péssima mãe para seus nove filhos. A historiadora Anka Muhlstein fez uma biografia da soberana (Companhia das Letras) com um longo subtítulo, quase uma ementa biográfica: “Vitória: Retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa”.

Teria sido a relação ruim da futura rainha com sua mãe, também Vitória? O campo é rico para os psicanalistas. Vou falar como historiador: no século 19 estava sendo implantada a ideia de amor materno. As raízes são mais antigas, porém o século de Vitória é o momento da ascensão de muitas novidades: felicidade matrimonial, intimidade doméstica, crianças como seres especiais e, enfim, a dedicação absoluta das mães aos filhos.

Bem, na elite britânica a ideia ainda era mais diluída. Os pais entregavam os rebentos a amas de leite e babás. O convívio era escasso. Faltava aquele vínculo solidificado por noites veladas ao lado do filho doente, amamentação, banhos, troca de fraldas ou acompanhamento à escola e médicos. Uma típica mãe contemporânea terá dedicado mais horas aos filhos do que a qualquer outra pessoa ao longo da vida. Os vínculos são selados em embalos no colo, passeios e comidas preparadas para os pequenos. Isso inexistia e inexiste em aristocracias de qualquer época.

Elizabeth II é muito mais cordata do que foi Vitória, todavia seu convívio com Charles também não incluiu os procedimentos que descrevi acima. A soberana do século 19 era direta em dizer como o Príncipe de Gales, Eduardo, a aborrecia. Culpava o filho pela morte do marido, já que a febre tifoide atingira os dois e o filho sobreviveu. Imagino que a rainha Elizabeth nunca fez isso com o herdeiro. Suponho que não deva ter embalado berço por uma noite toda. Charles devia ver mais a mãe nos selos e nas notas de libras do que ao vivo. A revolução da maternidade atingiu classes baixas e médias, mudou pouco as relações entre mães princesas, duquesas e marquesas. Vitória foi uma mãe terrível e francamente grosseira com os filhos. Elizabeth é uma mãe fleumática e distante. Conviver com ambas aumentaria nosso afeto pelas nossas mães plebeias...

Nosso mundo é outro. Fruto da literatura, da arte, das igrejas e dos educadores, da lei e da majestade do Estado, a maternidade foi divinizada. Mães são sinônimo de amor total e, por consequência, as desviantes causam uma indignação absoluta. Querem um exemplo recente? Jennifer Natália Pedro foi acusada de ter matado a própria filha, Isis Helena, na cidade de Itapira, São Paulo. Conduzida para a cadeia de Tremembé, foi achada morta. O julgamento com júri ainda não tinha ocorrido. A acusada entrou na cela com a pecha de ser assassina da filha. A desconfiança bastou para acelerar a morte em circunstâncias ainda não esclarecidas. O caráter “sagrado da maternidade” está nos céus, na terra e entre detentas. Ao maior amor infringido, caberia a pena mais dura: a morte. Lei do Talião?

Volto aos afetos de Vitória e da sua trineta. Nem sempre foram mães como se esperaria hoje de um padrão de classe média, porém compartilharam algo com o mundo contemporâneo: amor aos cães. Vitória teve animais da raça pug, skye terrier, collie, border collie, pomerano, king Charles spaniel e outros. Os cães foram fotografados, retratados a óleo e imortalizados em túmulos com estátuas de bronze. Exemplo notável? O spaniel chamado Dash está enterrado perto do palácio de Windsor (Adelaide Cottage). A lápide anuncia que ali jaz Dash e que o animal apresentava um apego sem egoísmo, alegria sem maldade e fidelidade sem engano. (His attachment was without selfishness/His playfulness without malice/His fidelity without deceit).

A descendente da dona de Dash, Elizabeth II, ama os cães da raça corgie. Possuiu dezenas deles. Dedica carinho, comida e um quarto especial para eles no palácio. Fez surgir um livro divertido: “Not in front of the corgis, secrets of life behind the royal curtains”, de Brian Hoey. A soberana declarou, ao se aproximar dos 90 anos, que não continuaria com o hábito, temia que ficassem sem amparo após a morte dela. É uma revolução, afinal, ela levou Susan, uma cadela corgie, na sua lua de mel, em 1947.

Imagino se, em algum momento, os príncipes de Gales que esperaram tanto pela transição após os reinados das mães longevas, Edward e Charles, não teriam lançado um olhar invejoso pelo afeto sem barreiras que os animais de estimação recebiam em comparação com eles próprios. Sim, Vitória e Elizabeth foram boas mães... de cachorros. Já é alguma coisa. Cuidar de animais que nunca desejam nossa morte em função de alguma coroa é algo muito gratificante. Em geral, filhotes só nos fazem chorar no dia da morte... Bom dia das mães para todas as mulheres com filhos e com filhotes.

Leandro Karnal é historiador, escritor e membro da Academia Paulista de Letras.