Meio Ambiente

Guerra declarada aos canudinhos

Pesquisa mostra que esse é um dos piores tipos de plástico e que já está presente em alimentos e na água potável
Apenas canudos biodegradáveis poderão ser oferecidos em Sorocaba. Crédito da foto: Emidio Marques (18/1/2019)

Uma publicação do portal eCycle informa que se todos os canudos consumidos pelos brasileiros forem empilhados durante um ano, seria possível dar uma volta completa na Terra, em uma linha de mais de 45.000 quilômetros de largura! Os canudinhos de plástico estão entre os piores tipos de plástico, porque se quebram em pequenas partes e já estão presentes nos alimentos, no sal, nos organismos e até na água potável do mundo inteiro.

Um vídeo que viralizou na internet virou símbolo da luta contra esse material. As imagens mostravam o sofrimento de uma tartaruga marinha encontrada na Costa Rica, que tinha um pedaço de canudo plástico preso em sua narina. Conforme a ONU, um milhão de aves marinhas e 100 mil mamíferos marinhos são mortos anualmente pelo plástico nos oceanos, 44% de todas as espécies de aves marinhas, 22% das baleias e golfinhos, todas as espécies de tartarugas, e uma lista crescente de espécies de peixe já foram documentados com plástico dentro ou em volta de seus corpos.

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Proibição a partir de agosto

Em Sorocaba, os comerciantes têm até agosto próximo para deixarem de vender canudinhos de plástico. Caso contrário, serão multados. Enquanto isso não acontece, neste período de transição os canudos devem ser fornecidos somente se houver solicitação do cliente, sendo proibida a entrega espontânea e a exposição pública. Assim que a lei estiver em vigor, o comerciante que oferecer o canudinho de plástico, ao invés do biodegradável, será multado em 120 Ufesps (R$ 3.084,00), valor que pode duplicar e ir aumentando sucessivamente enquanto a regra não for seguida.

Tartarugas e aves marinhas estão entre os animais mais prejudicados pelo descarte irregular – Foto: Pixabay.com

No entendimento do biólogo Demis Lima, como é grande a quantidade de produtos com plástico, cabe à indústria criar coisas que degradem mais facilmente. “Por outro lado, cada Prefeitura tem de implantar um sistema de coleta inteligente e um descarte bem feito do resíduo.”

Demis afirma que é dever questionar a política que acabou desestimulando as cooperativas. “Tinha uma verba para essas entidades. Resíduo bem direcionado dá dinheiro. A reciclagem feita pelos catadores é um trabalho nobre. Plásticos e metais não precisam ir para o aterro, estamos pagando por algo que deveríamos receber.”

Antigamente, lembra Demis, refrigerantes, sucos e leite eram vendidos em garrafas de vidro e bastava levar os cascos para voltar com mais unidades dos produtos. Estes voltavam para as empresas, que tinham o trabalho de lavar os vidros: era mais um gasto. Com as garrafas de plástico, isso acabou. “Na Europa, a empresa é responsável pelo que produz, enquanto no Brasil deixaram o governo se virar com esse resíduo. Tem países em que você vai ao supermercado, leva as embalagens e recebe em crédito ou dinheiro. São pessoas conscientes de que compram o produto e não a embalagem”, afirma o biólogo.

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Na opinião de Demis, o que falta é cobrança por parte da população brasileira nesse aspecto. “Aqui em Sorocaba, por exemplo, a Prefeitura paga para depositar lixo na cidade vizinha sendo que poderia reciclar.”

Conscientização e mudança de hábito

Se por um lado falta educação ambiental para muita gente, por outro há quem pense em sua responsabilidade e busca colaborar. A dona de casa Suely de Fátima da Silva Ferraz é uma dessas pessoas. Para ir ao supermercado, ela leva suas sacolas e não tem costume de comprar canudinho. Tudo o que Suely pode fazer para diminuir os prejuízos sofridos pelo meio ambiente, ela faz. “Na minha rua não tem coleta seletiva, mas eu separo materiais para reciclagem, porque passam catadores. Também separo óleo de cozinha e dou para uma senhora que faz sabão.”

Suely de Fátima: reduzir o lixo – Foto: Fábio Rogério (30/05/2019)

Suely sabe que o brasileiro produz muito lixo. “Na Bélgica, o lixeiro passa a cada 15 dias, já aqui são três vezes por semana e ainda não dá. A gente passa na estrada e vê muito sacolinhas com lixo, o povo não tem consciência. Onde vamos parar com tanto lixo?”, questiona.

O comerciante Cesar Lollo, proprietário de um restaurante, conta que se adiantou à lei que proíbe canudinhos de plástico e já está oferecendo a seus clientes o biodegradável. No entanto, o produto é mais caro. “Estamos tendo de arcar com isso, está difícil repassar para o consumidor”, diz. Para se ter ideia, ele paga R$ 3,50 pelo pacote com 250 unidades de canudos de plástico, já a mesma quantidade do biodegradável custa R$ 5,90.

Em uma lanchonete de fast food, funcionários afirmam que só estão disponibilizando canudo de papel para quem pede. Nesse estabelecimento, o copo é de papelão e os produtos todos são recolhidos e separados para reciclagem.

Confira a série de reportagens sobre o Meio Ambiente produzida pelo jornal Cruzeiro do Sul. (Daniela Jacinto

 

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