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Projeto mergulha na obra da escritora Tatiana Belinky

Companhia de Artes Dramáticas prepara série de audiodramas com textos raros da escritora infantojuvenil



Em 1999, a escritora esteve na inauguração do teatro da Cia de Artes Dramáticas que leva seu nome, em Votorantim. Crédito da foto: Divulgação

Para comemorar o centenário de nascimento de Tatiana Belinky, uma das mais importantes e respeitadas escritoras da literatura infantojuvenil brasileira, o Núcleo de Radioteatro da Cia. de Artes Dramáticas (CAD), de Sorocaba, mergulha na obra mágica da autora, resgatando textos raros dos teleteatro encenados ao vivo na TV Tupi de São Paulo entre 1952 a 1964, e adaptando para o formato de audiodrama na plataforma Youtube.

A iniciativa é do diretor e dramaturgo sorocabano Júlio Carrara, que se tornou amigo de Tatiana Belinky em seus últimos anos de vida e foi presenteado com o rico acervo original. Intitulado “Teatro da Juventude”, o canal vai reapresentar peças e séries escritas por Tatiana e por Júlio Gouveia, seu marido, que também dirigia o grupo Teatro-Escola São Paulo (Tesp), que tinha no elenco nomes conhecidos da dramaturgia nacional como Maria Adelaide Amaral, Débora Duarte, Beatriz Segall, Lúcia Lambertini, David José, Haydée Bittencourt, Ítalo Rossi, Felipe Wagner, Edi Cerri, Beatriz Segall, Paulo Basco e Adriano Stuart.

Carrara destaca que como os programas eram transmitidos ao vivo — não havia videotape na época –, não sobrou nenhum registro, exceto uma cópia dos roteiros, que Tatiana datilografava diretamente no estêncil e depois os copiava em um arcaico mimeógrafo para ser entregue aos atores, que tinham um dia para decorar. Os programas, detalha, eram levados ao ar na noite seguinte com um ensaio apenas. “A Tatiana costumava brincar que era um verdadeiro trapézio sem rede”, afirma.

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Escritora adaptou clássicos da literatura, como “Pollyanna”, na foto com Verinha Darcy e Henrique Martins. Crédito da foto: Divulgação

Grande parte dos roteiros que Tatiana escreveu foram confiados ao amigo sorocabano, que ficou responsável pela digitação do material de cerca de 20 mil laudas. Deste acervo, somente um pequeno conjunto de 18 peças havia sido publicado em 2012 no livro “Tatiana Belinky — uma janela para o mundo”, organizado por Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, com a colaboração de Karin Mellone e de Carrara.

O idealizador do projeto detalha que os originais estão mimeografados em papel jornal e encadernados em volumes de 700 laudas cada, portanto, o uso de scanner para digitalização poderia comprometer o material, que ainda é enriquecido por anotações feitas à mão por Júlio Gouveia. “Então tenho que digitar mesmo. É uma tarefa que exige muito cuidado e muito tempo, mas é muito prazerosa”, ressalta.

Até o momento, Júlio Carrara já transcreveu 108 peças, que serão divulgadas paulatinamente no canal do projeto no YouTube. Sob direção de Carrara, os episódios de audiodrama têm no elenco os atores Ana Duarte, Camila Ribeiro, Dado Carvalho, Douglas Anhaya, Ivone Martins, Jéssica México, Luciana Patrícia, Martin Loe, Mika Rodrigs e Rodrigo Moura. A gravação e finalização são assinadas por Maurício Nogueira.

Além do programa no Youtube, desenvolvido pelo núcleo de radioteatro, a companhia homenageará Tatiana Belinky nos palcos com uma remontagem da peça “A onça e o bode” que estreia no próximo domingo, dia 14, às 19h, no Espaço Cultural Du-Arts (rua Antonio São Leandro, 76, no Jardim Maria Eugênia). A temporada ficará em cartaz em todos os domingos deste mês. Os ingressos serão vendidos no local ao valor de R$ 10 (adulto) e R$ 5 (crianças e adolescentes de até 15 anos).

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Canal

O canal “Teatro da Juventude” foi criado em 18 de março deste ano, data do centenário de Tatiana Belinky, sucedendo o projeto “Contos radiofônicos”, também disponível no canal do CAD no Youtube, que contou com 150 episódios com roteiro e direção de Júlio Carrara, que giram em torno de mistério, assombração, loucura e morte. Do novo projeto dedicado à Tatiana já estão disponíveis dois episódios pilotos, “Feitiço contra feiticeiro” e “O xale do leão”, ambos da série “Fábulas animadas”. Os novos episódios serão lançados a partir de 20 de agosto, semanalmente, aos domingos, às 18h.

Júlio Carrara relata que conviveu com Tatiana por 15 anos, até a sua morte, em 15 de junho de 2013. A amizade teve início depois de uma saga do já diretor teatral em busca de uma peça infantil que não fosse repleta de “lições de moral”. “Quando li ‘A sopa de pedra’, de Tatiana, tudo mudou. O texto era divertidíssimo, com personagens espertalhões que ludibriavam um ao outro”, relembra.

Quando terminou a leitura, decidiu encená-lo, mas precisava da autorização da autora. “Consultei a lista telefônica. Ainda não tinha as facilidades da internet. Liguei para ela e pedi para conhecê-la. No dia seguinte, estava ao seu lado, trêmulo e gaguejante”, relata. Ela não só deu a liberação dos direitos autorais, como o presenteou com um calhamaço de textos. Além de montar o espetáculo, em 1999, a Cia de Artes Dramáticas inaugurou um teatro de bolso na Vila Dominguinhos, em Votorantim, e o espaço recebeu o nome de Tatiana Belinky, que esteve presente para descerrar a fita de inauguração.

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Vale destacar que a fase de autora de teleteatro e séries para a televisão ocorreu antes de Tatiana se tornar uma das mais consagradas escritoras infantojuvenis do País, com mais de 270 livros, entre eles “Coral dos bichos”, O grande rabanete”, “O livro das Tatianices” e “Transplante de menina”.

Tatiana – que nasceu na Rússia, em São Petersburgo (à época, se chamava Petrogrado), e desembarcou no Brasil aos 10 anos com a família para fugir das guerras civis que assolavam seu país — também se destacou no campo da tradução, por obras como “O cão fantasma”, de Ivan Turguêniev, e “Histórias de Bulka”, de Lev Tolstoi. Além do “Fábulas animadas”, Tatiana Belinky foi responsável pela série “Teatro da Juventude”, pela primeira adaptação do “Sítio do picapau amarelo”, de Monteiro Lobato, para a TV, e também por adaptar clássicos da literatura universal como “As aventuras de Pinóquio”, “Peter Pan” e “Pollyanna”. (Felipe Shikama)

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