Letra Viva

Um clássico lido por um pai

Confira a coluna Letra Viva, de Nelson Fonseca Neto



Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Perdi a conta de quantas vezes ouvi, nos últimos quatro meses, a pergunta: a sua vida mudou muito depois que você se tornou pai? É claro que sim. Desnecessário dizer que mudou para melhor.
Mas a resposta precisa ser detalhada. Não vou tratar aqui de obviedades. Por exemplo, sobre a responsabilidade. Óbvio que a gente fica mais prudente. Também seria redundante tratar das reflexões a respeito do futuro. Basta dizer que, ao que tudo indica, o João Pedro terá de lidar com uma sociedade hostil. Mas não estou aqui para falar de distopias.

Quero falar de miudezas. É a partir delas que conhecemos os pontos cruciais da vida. Sempre acreditei nisso. Eu sou chegado numa sinédoque. Aquele lance da parte pelo todo.

Já escrevi aqui que a chegada do João Pedro alterou o regime do sono. Não que ele dê trabalho nesse quesito. Ele dorme bem. É raro que ele acorde de madrugada. Ele pega no sono facilmente. A gente sabe que ele vai dormir quando o olhar para os móbiles do berço é fixo. É tiro e queda. Dez minutos depois a figurinha capota. E apesar disso, o regime do sono foi alterado. Ele ficou um tantinho mais leve. E não dá mais para acordar tarde no fim de semana. Sem problemas.

Também já escrevi aqui que ficamos mais neuróticos com os barulhos da rua. Moramos no centro da cidade, o que quase sempre torna cômoda a nossa existência. Mas é impossível gabaritar na vida. Sempre há os efeitos colaterais. O barulho é um deles. Eu diria que é o principal deles. Um dia alguém ainda estudará a fundo como aumentou o ruído de motos potentes em nossa cidade. A zoeira não respeita horários. E pensar que são marmanjos fazendo essas graças por aí.

Não lembro para quem eu disse que um sujeito vira adulto quando aprende a abrir mão de algumas coisas. Pode ser a ida frequente ao barzinho com os amigos. Pode ser a viagem paradisíaca feita todo santo ano. Pode ser a coleção de miniaturas de carro. Pode ser um monte de coisa. Ser adulto tem disso. Tudo dobra de relevância quando o cara se torna pai. Sorte que eu não gosto muito de barzinho, que eu tenho uma fobiazinha de viagem, que tive uma infância repleta de brinquedos.

Agora eu preciso contar o que aconteceu comigo na semana passada. Resolvi ler, pela quarta vez, “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger. É daqueles livros que a gente sempre ouve alguém dizer: “você precisa ler!”. O romance de Salinger, publicado na década de 40, é sinônimo de rebeldia jovem. Sua técnica foi revolucionária. Trata-se de um narrador, em primeira pessoa, de 16 anos. Salinger se esmerou na dicção de Holden Calfield. Ler as quase 250 páginas do romance é mergulhar numa linguagem acelerada, desbocada, irada, lírica, implicante, comovente. Na década de 40, não era comum encontrarmos livros assim. Foi, sim, algo revolucionário. A jornada de Holden Calfield, menino abastado de Nova York, é altamente simbólica. Todos somos Calfield, de um jeito ou de outro.

Eu tinha dezessete anos quando li pela primeira vez “O apanhador no campo de centeio”. Lembro de ter gostado. E lembro, também, de ter achado Holden Calfield uma mala sem alça. A impressão se manteve na segunda e na terceira leitura. Dos meus vinte e poucos aos quarenta e um anos, Holden Calfield ficou na geladeira. Aí, a editora Todavia resolve lançar uma nova tradução de Salinger. A tarefa ficou sob a responsabilidade de Caetano Galindo, um craque. Eu até que gostava da tradução que circulava por aí até então. O problema é que romances que apostam em gírias envelhecem mais rápido. A tradução que tínhamos reproduzia a fala de um adolescente dos anos 60 no Brasil. Uma atualização era urgente. Não é mais.

Ler a nova tradução foi uma delícia. Ficou mais fácil perceber o brilho de Salinger. Mas, sinceramente, isso não foi o mais importante. O que foi bacana demais é que eu parei de achar Holden Caulfield uma mala sem alça. Passei a vê-lo como um carinha bacana. Suas cabeçadas são comoventes. É que agora eu tenho um filhinho. Daqui um tempo, ele terá a idade do Caulfield. E você passa a se dar conta de que a adolescência é difícil pra danar. E você passa a ser menos rigoroso na hora de olhar pra esse pessoal. E você passa a querer proteger os Holden Caulfield que andam por aí. Ser pai tem dessas coisas.

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