Letra Viva

Sobre Galinha Pintadinha e sentimento de culpa

Confira a coluna "Letra Viva" de Nelson Fonseca Neto

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Antes do João Pedro, a Patrícia e eu íamos ao restaurante e ficávamos horrorizados com crianças que não desgrudavam os olhos do tablet ou do celular. Eram bebês ou crianças dos seus sete, oito anos. Mal olhavam para os pais.

Preciso ser honesto com vocês. Até poucos meses atrás, eu me importava pouco com o que aquelas crianças viam nos tablets ou celulares. Era tudo a mesma coisa para mim: umas musiquinhas irritantes e uns personagens que ficavam pulando pra lá e pra cá.

Temos vários amigos com filhos pequenos. Virava e mexia, eles falavam da Galinha Pintadinha ou da Palavra Cantada ou dos Backyardigans. Falavam, dava para perceber, com um certo sentimento de culpa. Como se aqueles desenhinhos fossem um mal necessário. No mundo ideal, eles não precisariam recorrer àquelas micagens. Mas vá acalmar uma criança irritada.

Sentíamos um pouco de pena desses nossos amigos. Sempre é mais fácil bancar o isento quando não é o calo do nosso pé que aperta. Vá falar para o sujeito que está sofrendo com uma dor de dente que aquilo passa rápido. Enfim, quando não tínhamos um bebê em casa, éramos os sábios da pedagogia.

Destrinchávamos o sentimento de culpa de nossos amigos. Achávamos que eles eram vítimas de uma tendência que prega a perfeição na hora de criar os filhos. De acordo com essa linha, tudo na vida da criança deve ser esquadrinhado. Os pobres pais acabam soterrados pelos conselhos que envolvem nutrição, cuidados médicos, material das roupinhas, tipos de brinquedinhos, historinhas que podem ser contadas, historinhas que não podem ser contadas, brincadeiras com propósito educativo, brincadeiras aleatórias, desenhinhos recomendados, desenhinhos nocivos.

Se levarmos a sério essa montanha de conselhos, passamos a acreditar que cada segundo da vida da criança pode e deve ser controlado. Tudo tem que ser significativo. As experiências, pouco importa se são as mais prosaicas, devem ser mágicas. Covenhamos: não tem como dar certo. Os pais enlouquecem e as crianças recebem um peso monstruoso sobre os ombros.

É um jeito triste de levar a vida. Não se tem sossego. O sentimento de culpa não dá folga. As frustrações esperam logo ali na próxima curva. Não surgem do nada algumas situações constrangedoras. A festinha tem que ter uma produção hollywoodiana, com monitores treinados à exaustão, cardápio refinado, docinhos compondo uma estética barroca/cafona. Ninguém pode cair na brincadeira. Todos devem estar perfeitamente dispostos na hora de cantar os parabéns. Os fotógrafos devem capturar os melhores ângulos de tão soberbo evento. Ai deles se alguma coisa não correr bem. Foi só um exemplo. Imaginem essa pegada multiplicada na escola, no clube, no shopping, na viagem de férias, na casa dos amigos e parentes.

Vai ver que isso explica tanta gente arreganhando os dentes por aí. Impossível tocar a vida com a corda sempre esticada. Não estou defendendo aqui o desleixo, a omissão criminosa. Claro que eu sei que é papel dos pais proporcionar conforto físico e emocional. A fralda tem que ser trocada regularmente. A fome do bebê aparece o tempo todo. O nenê é mais sensível ao frio. A criança deve ser poupada de gritarias e ataques histéricos dos adultos. Eu sei de tudo isso. Somos atentos às necessidades do João Pedro. Apenas tentamos calibrar as expectativas. É bom reconhecer que sempre há uma margem de erro.

Essa volta toda para dizer que o João Pedro foi apresentado à Galinha Pintadinha. Fizemos isso sem culpa. Coisa de alguns minutinhos por dia. Não achamos que isso significará uma catástrofe. E não é que os desenhinhos são bonitinhos? Quem diria que eu um dia escreveria a respeito disso! Saibam que o faço com muito gosto.

Para matar a curiosidade de vocês: o João Pedro gosta muito da Galinha Pintadinha. Ele já tem algumas personagens preferidas: a borboletinha e o pintinho. Cá entre nós, ele tem razão.

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