Letra Viva

O último domingo de março

Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Escrevo este texto na manhã de domingo, alguns minutos depois das nove horas. Não costumo fazer isso nas manhãs de domingo. Normalmente eu empurraria com a barriga e enviaria a crônica quarta-feira à noite.

É que antes do João Pedro chegar eu teria, a esta altura, acordado há poucos minutos. E teria dormido bem tarde no sábado. Sei lá, duas, três da manhã. Certamente teríamos comido fora ou ido ver alguns amigos. Uma ou duas caipirinhas para celebrar o ócio.

Mas agora o que eu acabei de descrever soa distante. Quase numa outra vida. Ontem a gente capotou junto com o João Pedro, perto das onze. Depois, acordamos uma e meia da manhã. Depois, perto das quatro. Depois, perto das seis. Quem faz o serviço pesado na madrugada é a Patrícia. Não tenho como amamentar. Mas a gente quer participar de alguma forma. Nem que seja para perguntar se está tudo bem.

Se eu fosse adolescente, voltaria a dormir perto das seis da manhã e só sairia da cama lá pelas onze. Mas envelhecer é dormir menos. Repare se isso não acontece com você. Quando foi que você, depois que passou dos quarenta, dormiu mais de oito horas seguidas? Duvido que você se lembre.

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Assim, quando o sino do seminário bateu seis vezes, pulei da cama. O João Pedro estava mamando, a Patrícia estava com a cara mais linda do mundo. Minutos depois, peguei o nenê no colo e demos umas voltinhas pelo apartamento. Ele adormeceu logo. Falei para a Patrícia tirar um cochilo. Acredite: esses cochilos são salvadores.

João Pedro e Patrícia dormindo o sono dos justos, e eu resolvi botar em ordem a burocracia do trabalho. Precisava mandar umas provas e escrever um texto para um site. Quando tem nenê em casa, a gente cumpre as obrigações em ritmo de corrida olímpica dos cem metros rasos. Espero que isso não afete a qualidade.

Aí eu me dou conta que me livrei das obrigações mais urgentes. Hora de pensar em besteiras. Por exemplo, que o assoalho de madeira é lindo, mas que se torna uma desgraça quando os adultos da casa precisam, em alguns momentos do dia, andar que nem gatunos. Nossa sala tem assoalho de madeira. São umas tábuas lindas. Caprichamos no sinteco, que custou uma fábula. Os amigos que vêm até aqui elogiam. É que eles não carregam um bebê quase adormecido que acorda assustadinho com o rangido da tábua. A Patrícia e eu somos metidos a estrategistas e tentamos mapear os pontos críticos do piso. Tomamos o maior cuidado do mundo. Fazemos malabarismos inacreditáveis. Adianta? Não seja ingênuo. Lembre-se da Lei de Murphy. Quando estamos quase chegando ao corredor, de piso mais estável, o último passo gera um rangido que poderia aparecer num filme de terror. A gente pensa nuns palavrões. Acaba tudo em risada. Tem que ser assim.

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Escrevo este texto no último domingo de março. As provas foram enviadas por e-mail. O texto pro site está pronto. Avancei bastante neste texto que eu mandaria só na quarta-feira. O João Pedro acordou de novo. Está mamando logo ali. Ele faz uns barulhinhos engraçados. Parece um velhinho resmungando. Logo mais a gente vai ver o esquema do almoço. Provavelmente o nenê dormirá perto de uma e meia da tarde. Provavelmente será um sono mais longo. Descendente de espanhol é fogo: o descanso depois do almoço é sagrado.

Temos várias horas pela frente neste domingo. Se tudo der certo, veremos dois episódios de “Mad Men”. Viciamos em “Mad Men”. Acho que o João Pedro também gosta. Começamos a ver a série em janeiro, antes de ele nascer. Naquela época, quando víamos a Peggy Olson e o Don Drapper, o João dava uns chutinhos. Agora ele assiste no colo da Patrícia. Não costuma reclamar. Estamos na quinta temporada, de um total de sete. Já está dando saudade. Veremos qual será a próxima série. De uma coisa temos certeza: o João Pedro precisa aprovar.

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E assim vamos atravessando o último domingo de março. Melhor assim, humildemente, sem pensar em fazer abobrinhas por aí.

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