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Acervo

Medalhão

02 de Abril de 2021

Nelson Fonseca Neto - [email protected]

Acho que foi no ano retrasado. Eu estava na farmácia. Uma senhora perguntou se eu era o colunista do jornal. Quando eu respondi que era, ela engatou uma conversa interessante. Lá pelas tantas, ela, muito educada, disse que tinha uma crítica a fazer aos meus textos: ela achava que eu poderia falar mais sobre literatura brasileira. Concordei. Ela percebeu bem o ritmo das coisas por aqui.

Vocês dirão: por que você está resgatando algo do ano retrasado? Não sei. O episódio voltou à tona, fui pensando umas besteiras para completar, e o resultado é o que vocês estão lendo aqui. Aproveitei a deixa do episódio do ano retrasado para fazer um balanço dos livros e autores tratados neste espaço. A literatura estrangeira ganha de lavada.

É de propósito? Não, não é. Vou mencionando livros e autores de acordo com a empolgação. E é aí que a cuíca ronca. Pode ser que algum leitor birrento ache que abomino a literatura brasileira. Não é verdade. Não abomino a literatura brasileira. Só não esperem patriotadas canastronas deste que assina a coluna.

Já tive a infelicidade de conhecer gente que dizia se orgulhar de ler apenas autores brasileiros. Não estou brincando. Tem gente assim andando por aí. Melhor ouvir um tipo desses sem contrariar. Argumentar é perder tempo nesses casos. Fanatismo tem dessas coisas mesmo.

Já tive a infelicidade de conhecer gente que dizia que a literatura era uma porcaria. Tem gente assim andando por aí. Melhor ouvir um tipo desses sem contrariar. Argumentar é perder tempo nesses casos. Fanatismo tem dessas coisas mesmo.

Eu seria um otário se quisesse me situar num dos extremos. A literatura brasileira tem obras maravilhosas. A literatura brasileira tem obras ruins. Poderia dizer a mesma coisa sobre qualquer outro país. É só deixar o bom senso prevalecer.

Um exemplo: José de Alencar. Por muitas décadas, um símbolo da literatura brasileira. Vou além: um símbolo do que temos de melhor e de pior. Não esperem que eu faça uma tatuagem do Alencar no meu braço esquerdo. Não esperem que eu detone tudo que ele escreveu. “Senhora” é um romance maravilhoso. Algumas páginas de “Til” são um porre. Vários outros autores funcionam como o Alencar.

Toda literatura tem seus medalhões. São as figuras monumentais. Na Alemanha, Goethe. Na Inglaterra, Shakespeare. Na Rússia, Tolstói. Na França, Victor Hugo. No Brasil, José de Alencar. Acho fundamental conhecer os medalhões. Não são medalhões à toa. Escrevi várias colunas defendendo os clássicos.

O problema ocorre quando dizemos que o medalhão representa toda uma literatura, toda uma nação. Seria a mesma coisa que achar que uma árvore exuberante representa a floresta inteira. Ainda bem que a vida sempre é mais complicada.

Acreditar que Alencar representa toda uma literatura é de uma pobreza atroz. Vai muito de cada um, claro, mas tenho olhado com mais carinho para autores que não são considerados medalhões. Nos últimos dias, venho relendo tudo do Mário Filho, irmão do Nelson Rodrigues.

Eu não iria ao ponto de dizer que o Mário Filho é um escritor desconhecido. Não é. O Maracanã carrega o nome dele. Merecidamente Mário Filho é tido como o maior cronista de futebol do Brasil. E isso não é pouco.

O que defendo em relação a ele é o seguinte: ele é um dos grandes escritores brasileiros, ponto. No geral. Sem ser apenas de futebol. Ele usa o futebol como eixo, mas seus textos transbordam para outros terrenos. Ali encontramos de tudo um pouco: humor, casos pitorescos, tragédia, maldade, abnegação, enormidades, miudezas. Mário Filho não conhece tempo ruim. Poucos jogam tão bem em várias posições.

Poucos dirão que Mário Filho merece ser um medalhão. Não deixa de ser uma sorte danada. Assim, ele fica livre dos devotos que defendem que a literatura deve sempre estar de fraque e cartola.