Letra Viva

Engenheiro de obra pronta

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Tem circulado por aí uma expressão que eu considero das mais acertadas, por seu poder de síntese: “engenheiro de obra pronta”. É o sujeito que, com o maior garbo deste mundo, emite pareceres a respeito de algo que vem mobilizando a sociedade. Óbvio que tem muito engenheiro de obra pronta quando o assunto é a pandemia que tem nos atormentado.

Minha memória é boa, infelizmente. Tem gente que acha bonitinho lembrar de um monte de coisas. Pode até ser útil em alguns momentos, não nego. Mas perturba em outros. Bem que eu gostaria de esquecer de algumas coisas que vêm sido ditas e feitas nos últimos meses. Se eu fosse mais desmemoriado, certamente o mundo pareceria mais puro para mim. E aí meu otimismo aumentaria.

Acho lamentável a postura de engenheiro de obra pronta. Longe de mim querer estufar o peito e dizer: eu avisei. Vocês precisam saber que muitos dos aspectos da pandemia também me pegaram no contrapé. Darei, a partir daqui, alguns exemplos dos meus acertos e dos meus equívocos. Talvez saia disso um documento interessante que nos ajudará a lidar melhor com crises. Sei lá.

Eu já estava assustado no final de janeiro deste ano. Muita gente estava achando que o coronavírus seria algo que ficaria restrito ao território chinês e que não haveria tantas vítimas assim. Já naquela época eu desconfiava de tal leveza. Os relatos em torno da mobilização das autoridades do epicentro chinês mostravam que não era uma brincadeira o que estava rolando.

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Em algumas semanas, o vírus se espalhou. E aí o festival de horrores se intensificou. Gosto de acompanhar o noticiário internacional. A internet é uma mão na roda para essa minha mania. Nos últimos dias de janeiro, eu vi alguns dos canais de notícias dos EUA. Vários dos âncoras e convidados repetiam sem parar que a Covid-19 era mais inofensiva que a gripe comum. Mostravam, em tom de tiração de sarro, o número de norte-americanos mortos naquele momento: zero. Em Milão, o prefeito foi ardoroso defensor de uma campanha de que a vida deveria correr normalmente. Depois ele viu o tamanho da besteira e pediu desculpas. O pessoal de alguns noticiários nos EUA, mesmo com mais de cem mil mortos por lá, faz malabarismos retóricos e não dá o braço a torcer.

Nos primeiros dias, até dá para entender o pessoal agindo de forma atabalhoada. Muita coisa a respeito da Covid-19 está sendo descoberta enquanto os países sofrem. Era até esperado que as autoridades não respondessem com perfeição ao desafio logo de cara. O que pega para mim é o seguinte: em questão de poucos dias, ficou evidente que a pandemia não era fichinha. Países que sofreram primeiro mostravam índices de letalidade alarmantes. Colapso de sistemas de saúde e mortes aos milhares apareceram com nitidez no horizonte. Dependendo do lugar aqui no Brasil, tivemos de nos familiarizar com termos como “isolamento”, “quarentena” e “achatamento da curva”.

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Aí vem o ponto em que eu quebrei a cara. Vi, nos primeiros dias de isolamento, grande mobilização. Achei que a tal curva seria achatada e que sofreríamos menos que outras nações. Quebrei a cara. E quebrei a cara porque a comédia de erros abunda por aqui. Foram poucos dias de isolamento mais severo. Isso porque nossa estrutura econômica deu rapidamente sinais de alerta. As autoridades locais não tiveram cacife para uma política de isolamento mais rigorosa. Muita gente não conseguiu segurar o ímpeto de bater perna por aí. Sem contar os valentões e valentonas circulando nas gloriosas ruas da cidade. Tem de tudo um pouco nesta nossa tragédia.

Agora, muitas cidades estão afrouxando as normas de isolamento. Convenhamos: faz tempo que tudo foi avacalhado. Num dia em que tivemos de levar o João Pedro para tomar vacina, vimos muita gente usando a máscara no pescoço. Hoje, ouço que máscaras e álcool em gel mostrarão que contornaremos a pandemia. Como eu gostaria de ser um sujeito “bola pra frente” e concordar com isso…

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Acho que ainda sofreremos muito mais.

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