Letra Viva

As delícias e as dores da nostalgia

O barato era jogar algo que custara algumas horas de sacrifício. Ou seja: a abundância atual traz palidamente o passado

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

A gente repara em cada coisa. Não me considero um sujeito perspicaz. Nesse quesito, a Patrícia dá de dez a zero em mim. Um dia eu conto melhor para vocês.

Se eu reparo em algo, isso significa que esse algo é gritante. Se não fosse, passaria batido por mim com facilidade. Esses dias mesmo, eu estava papeando com a Patrícia sobre como eu venho me isolando das coisas que acontecem fora do meu círculo mais próximo. Ela concordou quando eu disse ter preguiça de me envolver com as grandes questões do nosso tempo. É claro que a conversa começou por conta da polarização política nas redes sociais. Eu disse que admirava quem ficava fazendo postagens engajadas. Eu não estava fazendo graça. Eu realmente admiro essas pessoas. Só não consigo agir da mesma forma. Pode ser que eu me arrependa dessa minha omissão. Se bem que não é omissão, pois tenho opiniões bem definidas sobre o que está acontecendo no Brasil e no resto do mundo. No fundo, sou um desiludido. Mas paremos por aqui e tratemos de outros aspectos do meu isolamento e de algo que vem reparando.

Reparei que vivemos numa época apaixonada pelo retrô. Barbearias e restaurantes que tentam recriar o ambiente dos anos 50 e 60 surgem a cada esquina. Fabricantes de brinquedos estão lançando edições especiais de produtos que magnetizaram as crianças dos anos 80. Não é difícil encontrar as caixonas do Ferrorama e do Autorama. Fabricantes de consoles antigos de games estão vendendo horrores os Nintendos e Mega Drives da vida. O site Mercado Livre está repleto de transações envolvendo bonequinhos dos Comandos em Ação e do Falcon.

Não é um retrô difuso. Isso, milagre, eu consigo perceber. A nostalgia mirou nos anos 80 e início dos anos 90. Sidney Magal voltou a ser celebridade. Idem para a Gretchen. Acho que tenho autoridade para discutir o assunto. Eu era um devorador de audiovisual nessa época da minha infância. Eu gastava algumas horas do dia entretido com os games. Sinceramente, o passadismo que venho acompanhando me deixa dividido.

Tem uma parte minha, claro, que gosta. O pessoal tem comercializado por aí um aparelho minúsculo que comporta quase dez mil jogos dos consoles antigos. É fácil de instalar. Roda bem nas televisões mais modernas. Mata a saudade de qualquer nostálgico empedernido. Eu gosto de um treco desses, mas surge, logo depois, um leve incômodo. Vou tentar explicar.

Na época em que meu irmão e eu jogávamos games, um ingrediente especial era justamente o oposto da abundância prometida pelo aparelho minúsculo de quase dez mil jogos. Não era culpa dos nossos pais, sempre generosos. Era culpa do Brasil mesmo. A gente não encontrava artigos importados a cada esquina, como acontece hoje. Tudo era muito mais contado. Era muito difícil encontrar determinados cartuchos por aqui. Quando encontrávamos, custavam uma fortuna. Era uma situação que favorecia as locadoras de jogos. Nas férias escolares, acordávamos cedo nas segundas-feiras para chegar à locadora e conferir os lançamentos que o dono trazia do Paraguai. Dependendo do jogo, tinha lista de espera. Não dava para ficar muito tempo com o cartucho, pois o dono da locadora ligava cobrando. Era um bom treino de como se deve viver em sociedade. Dá para todo mundo desfrutar um pouco. É só não querer bancar o mesquinho.

Mas o que eu queria dizer é o seguinte: nossa vida com os games certamente perderia a graça se tivéssemos todos os jogos no nosso quarto. O barato era jogar algo que custara algumas horas de sacrifício. Ou seja: a abundância atual traz palidamente o passado.

(Eu peço desculpas se me alonguei nessa história de games. É que ela é altamente simbólica para mim. Representa como estamos nos relacionando com o passado. Tomara que seja besteira minha, mas acho que não é.)

E tem mais: é bom colocar um limite nesse lance de nostalgia. É um treco bonitinho até a página dois. Depois vira algo mórbido. Não é à toa que muitos dos filmes de terror abordam personagens bizarras que ficaram congeladas numa determinada época. Norman Bates é um bom exemplo.

Não é preciso ser um gênio para desconfiar dessa nossa nostalgia exacerbada. É não gostar do presente. Isso sempre é perigoso. Se bem que eu entendo muito bem esse comportamento. Quem sabe não é uma tática de sobrevivência?

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