Letra Viva

A urgência do jornalismo

Não é exagero dizer que uma imprensa forte é crucial para a democracia de um país
Foto: Pixabay

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

É muito comum ouvirmos por aí que nossa época é instável. Quase sempre a conta é atribuída aos avanços da tecnologia de informação. Prodígios e tragédias são encontrados na internet.

Não restam dúvidas de que a maneira como nos informamos passou por abalos nos últimos anos. Basta olhar para os jornais impressos. Eles ficaram magrinhos. Textos maiores estão desaparecendo. Privilegia-se a rapidez.

Mas os abalos vão para além da diminuição dos textos. Muito mais importante que esse ponto é a geração exponencial de conteúdo. Um telefone celular dos mais modestos grava vídeos que podem ser vistos por milhões de pessoas. É possível escrever, do aconchego do lar, um blog bastante acessado. Resultado: as celebridades instantâneas que ainda hoje causam espanto.

O fenômeno das celebridades instantâneas caminha de mãos dadas com o aumento do número de fontes alternativas de informação. Hoje, duas ou três pessoas conseguem criar uma página de notícias lida por milhares de seguidores. É só ver o que vem acontecendo no Brasil e nos EUA nos últimos anos. Impossível negar o que está acontecendo. O problema é olhar para a coisa toda e não reconhecer a dimensão dessas mudanças.

Começa por uma questão fundamental: o jornalismo tradicional demanda uma equipe que deve dar conta das implicações de uma matéria explosiva. Checagem, fontes, elaboração do texto e aspectos jurídicos requerem uma equipe de alto nível. A credibilidade de uma empresa jornalística não pode ser abalada pela leviandade ou por achismos. Pense na responsabilidade que é cobrir uma eleição. Não é exagero dizer que uma imprensa forte é crucial para a democracia de um país. Se não for assim, ficamos reféns da gritaria e da busca por seguidores. Valorizar quem berra mais alto sempre é um perigo.

É por isso que a leitura de um livro como “Medo: Trump na Casa Branca”, de Bob Woodard, é um alívio. Woodward, um dos decanos do jornalismo dos EUA, figura importante da cobertura do escândalo de Watergate, esquadrinha os bastidores dos primeiros meses do governo de Donald Trump. É o tipo de jornalismo que é o avesso das armadilhas que temos encontrado por aí. Nele encontramos: tom sóbrio, pesquisa apurada, fontes confiáveis, checagem criteriosa, tempo para pesquisa, responsabilidade, ética.

Um livro desses coloca a bola no chão. Restitui um equilíbrio necessário aos nossos dias: a notícia rápida precisa conviver com um trabalho mais meticuloso. Os clássicos nunca perdem o frescor.
No Brasil, algo equivalente foi feito pela jornalista Malu Gaspar, no livro “Tudo ou nada: Eike Batista e a verdadeira história do Grupo X”. Uma obra dessas não sai de uma hora para outra. Não é coisa para quem quer apenas chocar. Demanda milhares de horas de entrevistas. Tudo deve ser checado. Há que se ter verve narrativa para despertar o interesse dos leitores leigos. Na obra de Malu Gaspar, os bastidores da vida política brasileira tornam-se acessíveis para o leitor médio. Parece simples, mas não é. Por incrível que possa soar, o estilo hermético costuma dar menos trabalho. Duro mesmo é ser compreendido por muita gente.

A conversa é manjada quando o assunto é jornalismo: a informação é veloz, superficial, instável. Fundamental é o conhecimento mais moroso, construído a partir da leitura de livros ótimos. Há verdade nisso. Cansei de ver gente bem informada papagaiando informações sem saber o que fazer com elas. Mas é necessário evitar o esnobismo de um Paul Valéry, que dizia que os acontecimentos o aborreciam. O caminho do meio sempre é mais seguro. Manter-se vigilante, com os olhos rápidos e as orelhas em pé, mas, ao mesmo tempo, saber a hora de botar a bola no chão, respirar fundo, raspar o verniz. Em suma ler mais a fundo sobre um determinado assunto.

Somente assim não seremos presas fáceis de quem adora promover uma bela de uma cortina de fumaça. Inegavelmente as palavras bombásticas têm lá o seu apelo. Muitas vezes, dar o tapa na mesa é sinal de segurança. Versões mirabolantes mexem com a nossa imaginação. Adoramos uma hipérbole. O problema é que não estamos no mundo da literatura. Todos perdemos quando o jornalismo abre mão de suas premissas.

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