Letra Viva

A praga dos comentários

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Eu já disse aqui que um dos meus vícios é ver programa antigo de televisão no YouTube. A Patrícia, com razão, acha esquisito. Trata-se de um vício inofensivo, e dele não abro mão.

Gasto uns bons minutos garimpando as velharias. Tenho ciclos. Meses atrás, eu vi um monte de jogos de futebol dos anos 90. Teve também a fase dos telejornais dos anos 80. Vi várias edições do Jornal Nacional e do Jornal da Globo. O Bonner era praticamente uma criança.

Nos últimos tempos, tenho desbravado programas de debate esportivo. Época: meados dos anos 90. Disparadamente o programa “Cartão Verde”, que passava na Cultura, é o melhor. Vai muito da memória afetiva nesse julgamento.

O “Cartão Verde” passava nas noites de domingo. A ênfase era no futebol. Mas tinha boa cobertura de outros esportes. A formação clássica do programa trazia caras sensacionais: Flavio Prado, José Trajano e Juca Kfoury. Tinha de tudo um pouco. Descontração e análise madura. Polêmicas e belas homenagens. Opiniões fortes.

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Eu teria margem para escrever longamente a respeito das virtudes do “Cartão Verde”, mas quero tratar aqui de um detalhe que talvez parecerá meio besta para muitos leitores. A internet estava engatinhando nos primeiros anos da década de 90. Mas já rolava a interação dos telespectadores com o programa.

Tudo era muito mais elementar. O Flavio Prado, apresentador do programa, fazia uma pergunta qualquer. A resposta era “sim” ou não”. Por exemplo: “O Edmundo deve ser convocado para a seleção brasileira?”. Quem achava que sim deveria discar um número X; quem achava que não deveria discar um número Y. Eu era fiel telespectador, mas nunca respondi “sim” ou “não”. Mais ainda: eu ficava imaginando o que levaria alguém a responder a enquete. Dá pra perceber que eu já era meio ranheta.

Minha perplexidade não mudou de lá pra cá. Imaginem o meu drama hoje. Virou moda pedir a participação do “internauta”, do “fã”, do “leitor”, do “ouvinte” etc. Vocês sabem que o que está em jogo não é apenas lidar com tecnologias mais avançadas que o telefone do “Cartão Verde”.

Nos anos 90, era “sim” ou “não”, e um abraço. Eu não sabia se o Zé que mora em Mairiporã é genial ou estúpido. Saber ou não faz uma diferença brutal. O problema tem várias camadas.

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A primeira camada é meio inofensiva. Eu, por exemplo, de umas semanas pra cá, abri mão de ler comentários feitos nas notícias que aparecem no Facebook. Fiz o que fiz porque eu estava achando aquilo tudo previsível e chato. Tem muita gente chata no mundo. O que estou querendo dizer com isso? Vou usar uma imagem. De vez em quando, numa praça, uma pessoa pega um caixote e o transforma em palanque. Azar do sujeito que passa ali naquele momento. Chance grande de ouvir profecias ou palavras indignadas. A conspiração cabeluda não pode faltar. Eu acho que muita gente que fica comentando as coisas por aí leva o maior jeitão de doidinho do caixote. Tem hora que é divertido, mas tem hora que enche.

Mas a treta sempre piora. Seria ótimo se tudo se resumisse a ser ou não chato. O problema gravíssimo fica evidente quando a prática política é pautada pela reação raivosa das pessoas. Imaginem só. Sou político e tomo decisões. Tenho minhas convicções. Sei o que é bom ou ruim, justo ou injusto. Mas percebo que a minha decisão vai render manifestações iradas nas redes sociais. Por puro medo, resolvo jogar para a torcida e jogo meus valores no lixo. E a torcida é feroz.

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Levar em conta o que essa galera tem a dizer é a tônica dos tempos atuais. O veneno é que muitas dessas pessoas estufam o peito e se sentem à vontade para abrir o alçapão dos piores sentimentos. Grandes atrocidades são ditas com empáfia. Repararam como, hoje, tem muita gente sentindo orgulho da própria ignorância? Tudo muito complicado. Dar voz a isso ser refém disso é cavar o buraco ainda mais.

Que saudade do pessoal telefonando na enquete do “Cartão Verde”!

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