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A porção redentora

26 de Fevereiro de 2021

Nelson Fonseca Neto - [email protected]

Tomara que a coluna de hoje não soe como conversa fiada motivacional. Não quero que ninguém siga o meu exemplo. Não sou exemplo pra ninguém. Deus me livre desse tipo de arrogância. O que segue é um relato breve do que aconteceu comigo nos últimos meses.

Decidi, depois de muito tempo adiando, fazer regime. Soltei a boca por anos. De vez em quando batia um sentimento de culpa. E batia também um sentimento de que a farra não poderia durar por muito mais tempo.

Nesses momentos mais melancólicos, eu tinha projetos modestos. A ideia não era ficar magro. Bastaria ficar um pouco acima dos 100 kg. Sei lá, 110 kg estaria de bom tamanho. Tem toda uma simbologia nessa história dos três dígitos. Sair de 100 para 99 era utopia. Juro que eu encarava as coisas dessa forma.

Isso porque eu sei que emagrecer depois dos 40 não é fácil. O metabolismo é mais arisco. A gente tem menos pique para atividades físicas mais intensas. É um baita drama. Mas decidi tentar mesmo assim.

Tomei a decisão em setembro do ano passado. Nada planejado, devo reconhecer. O gatilho foi uma situação que hoje a Patrícia e eu achamos engraçada. Posso garantir que foi bizarro em setembro do ano passado. Enquanto escrevo este texto, a Patrícia está logo ali, no sofá. Ela não imagina que revelarei os bastidores daqui de casa. Talvez ela fique brava ao ler o que estou contando aqui. Torçam por mim.

Eu dizia que a história do regime começou em setembro do ano passado. Pandemia comendo solta, pra variar. Estamos no Brasil, não nos esqueçamos. Os primeiros meses da pandemia foram vorazes aqui em casa. Lanches em abundância. Salgados gordurosos. Tabletes grandes de chocolate. Leite condensado com Nescau logo depois do almoço. Pão com manteiga antes de dormir. Em suma, a farra do boi.

Em setembro do ano passado, num sábado, almoçaríamos filé à parmegiana. O restaurante onde costumávamos pedir mandava umas batatas fritas deliciosas. A comida estava na mesa. Eu estava esperando a Patrícia sentar-se. Ela estava fazendo alguma coisa na pia. Eu, enquanto conversava com ela, ia comendo as batatas fritas. Até aí, tudo beleza. O problema é que eu ia enchendo a mão de batatas fritas. Fiz isso algumas vezes. Aí percebi que a Patrícia estava olhando para mim com expressão de tristeza e espanto.

Perguntei que cara ela aquela. Ela, com a voz embargada, disse que eu estava acabando com as batatas fritas tão apreciadas por ela. Ou seja: estava surgindo, naquele instante, uma desinteligência por conta de uma porção de batatas fritas. Hoje dou total razão à Patrícia, mas no dia não foi bem assim. Minutos depois, pensei: brigar por batata frita é fundo do poço. E assim começamos o regime.

Hoje, meses depois, perdi quase 40 kg. A Patrícia também deu uma boa afinada. Valeu muito a pena, ocioso dizer. Claro que o episódio das batatas fritas foi um gatilho dos mais bestas. Depois a gente foi encontrando motivos mais nobres. Ter criança pequena em casa sempre faz o discurso da boa forma ficar convincente.

De lá pra cá, os lanches pesadões sumiram do nosso radar. Nunca mais mordi um pastel. Nem lembro mais do gosto. Foram raríssimas as vezes em que comi doce. Passo notável. Eu tinha que comer doce todos os dias. Os refrigerantes desapareceram. Os legumes, os vegetais, os grãos saudáveis viraram protagonistas.

Deixei a fronteira dos três dígitos com folga. Hoje, dou aula a manhã inteira e saio às 13h todo serelepe. Reclamo muito menos do calor. Fico muito menos sonolento depois do almoço. Brinco com o João Pedro sem sentir a coluna miando. Enfim, essas coisas.

Disso tudo, a lição que fica é a seguinte: uma porção de batatas fritas não é apenas uma porção de batatas fritas.