Letra Viva

A maldição dos livros

As nuances das bibliotecas e livros físicos com o tal do leitor de livros eletrônicos

Nelson Fonseca Neto

nelsonfonsecanetoletraviva@hotmail.com

Sempre saio de casa com pelo menos um livro. Mesmo que seja uma ida rápida à padaria, o livro precisa estar junto. Nessas jornadas curtas, as chances para ler um pouco são raras. A experiência mostra isso a mim, mas insisto. Sair de casa sem livro é o equivalente a sair sem calças.

Essa minha mania rende interpretações equivocadas. Muita gente acha que sou tarado por livros. Não sou. Gosto de ler bons textos. Também preciso ler bastante, afinal, sou professor. Já disse aqui mais de uma vez: não encaro livro como fetiche. Se a pessoa gosta de ler e não está na miséria, é esperado que forme uma boa biblioteca ao longo dos anos. Foi o que aconteceu comigo. Foi o que aconteceu com o meu pai. Desde muito novo sou rodeado por livros. A Patrícia e eu temos muitos livros aqui em casa. A mesma coisa se dá com os meus pais. Meu irmão Tiago e a minha cunhada Milena também são donos de uma biblioteca respeitável. Para além disso, há livros que guardamos na casa do meu tio Kazuo.

Em julho de 2009, resolvi abrir um sebo. E para lá foi uma montanha de livros. Não sei dizer exatamente quanto, mas era muita coisa. Não demorei muito para encerrar o sebo. Doía o coração vender livros que eu amava. Egoísmo? Sim, e não tem problema admitir. Nos últimos anos, eu usava o espaço para dar aulas particulares. Era um híbrido de escritório com biblioteca. Foram bons anos. Mas precisavam acabar. Era uma insanidade pagar um aluguel salgado apenas para guardar com carinho os livros. E, assim, devolvi o imóvel dias atrás.

Claro que nessas horas muitas pessoas perguntam se fiquei com o coração partido. Se eu fosse um farsante, responderia, com a voz embargada, que sim. Acho que eu ficaria triste se tivesse que devolver o imóvel alguns anos atrás, numa situação de emergência, num golpe do destino. Só que não foi assim que aconteceu. Faz um bom tempo que venho lidando com a ideia de devolver o imóvel. Ou seja: tudo foi feito sem sustos, sem dramas.

Só que eu precisava devolver o imóvel intacto. Tudo deveria estar de acordo com o documento que assinei quando decidi abrir o sebo. Seria fácil se houvesse apenas a questão da pintura e um reparo aqui e outro ali. O problema era transportar milhares de livros e várias prateleiras. Por sorte, o meu sogro Lauro arrumou um lugar fantástico na chácara. Assim, o destino dos livros estava resolvido.

Mas como transportar milhares de livros? Com a ajuda de uma empresa especializada em mudanças, claro. E foi no dia da mudança dos livros que eu percebi que eles podem ser um tormento. A empresa mandou quatro trabalhadores experientes e centenas de caixas. Eles chegaram no início da tarde, e o serviço terminou perto de meia-noite. Os cômodos da chácara foram tomados por caixas de papelão. Era uma visão perturbadora. Daquelas que fazem a gente repensar em hábitos cultivados desde a adolescência.

Agora tudo está em ordem. Os livros não estão espremidos em caixas. O último aluguel foi pago. Por coincidência, a Patrícia deu de presente para mim um Kindle, que é um aparelhinho que lê livros eletrônicos. Achei uma maravilha. A tela não brilha demais, dá para regular a intensidade do negrito, consigo destacar um trecho e arquivar numa pastinha. Baixei livros que não encontro facilmente nas livrarias. A economia foi absurda. Estou feliz, e lendo mais.

Há quem não se acostume ao livro eletrônico. As razões são muitas. Todas elas compreensíveis: o cheirinho de papel e a sua textura; capas belíssimas; costume ancestral. Como eu disse, compreensíveis. Mas escondem aspectos nada românticos. Livro velho é o paraíso dos ácaros. O nariz vive entupindo. Cupim adora livro. Fazer faxina decente numa biblioteca é uma jornada tenebrosa. Quando o dono da biblioteca precisa mudar de casa, é um horror.

Equilíbrio é tudo nesta vida. Jamais jogarei minha biblioteca fora. Vez ou outra, comprarei livros. Ir a livrarias continuará sendo uma mania. “Dom Quixote” será relido na versão convencional, assim como todos os livros que me apaixonaram. Continuarei encontrando a paz em bibliotecas. O que mudou é bastante simples. Novidades serão baixadas no Kindle. Livros que eu sei que serão lidos apenas uma vez serão baixados no Kindle. Aqui é assim, um pé na tradição e outro na vanguarda.

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