Letra Viva

A leitura da bagunça

Confira a coluna Letra Viva, de Nelson Fonseca Neto
Crédito da foto: PxHere

Nelson Fonseca Neto – nelsonfonsecanetoletraviva@gmail.com

Por que você lê? Estou excluindo da pergunta as leituras feitas por obrigação. Acho que eu ouviria vários tipos de respostas: conhecimento é poder; quero aumentar meu vocabulário; quero entender melhor algumas situações; quero escapar da realidade cinzenta; quero conhecer outros mundos. E por aí vai. Não há motivos bons ou ruins. Cada um sabe onde o sapato aperta. Vou falar o que aconteceu comigo nos últimos dias. Não pretendo que vocês façam igual. É mais uma confissão mesmo.

Claro que uma parte das minhas leituras atende a necessidades profissionais. Sou professor. Impossível encarar a coisa de outra maneira. Trabalho com literatura, gramática e redação. Não comecei a dar aulas ontem. Lá se vão quase vinte anos. Seria tentador ligar o piloto automático. Tentador e irresponsável. Acho que não preciso entrar em detalhes. Basta ter bom senso para reconhecer o que estou dizendo.

Mas sempre sobra tempo para leituras que seguem o princípio do prazer. É aí que a coisa fica engraçada. Minhas leituras por prazer são cíclicas. Para mim, é fácil notar. Já passei longos períodos lendo dezenas de obras do mesmo gênero. Anos atrás, por exemplo, atravessei meses lendo somente romances policiais. Foi uma bela viagem. O duro é que você acaba pegando uns cacoetes de detetive durão. Depois passa. Ainda bem.

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Já assumi o compromisso de ler apenas os classicões ao longo de um ano. E dá-lhe Cervantes, Homero, Swifit, Kafka, Machado de Assis, Shakespeare, Tolstói etc. Foram meio turbulentas as semanas em que enfileirei os romances da maturidade de Dostoiévski. Quando venci a última página do último livro (“Os irmãos Karamázov”), eu estava sedento por amenidades. É que estava complicado sair por aí e ficar dividido por conta de dilemas morais insolúveis.

Também tive o meu período de biografias. Simenon, Sinatra, Dashiell Hammett, Lima Barreto, Getúlio Vargas, Roberto Campos, Guardiola, Jurgen Klopp. Foi o caos. E foi uma delícia. Tornei-me um arquivo de histórias relevantes e de anedotas bizarras.

Faz um bom tempo que minhas leituras não se dão por blocos ou metas ambiciosas. Vou lendo o que me dá na telha. Hoje, dia em que escrevo esta coluna, estou lendo um romance maravilhoso: “Arquivo das crianças perdidas”, de Valeria Luiselli. Não sei o que virá a seguir. Pode ser a “Trilogia USA”, de James Ellroy, ou “Expedição ao inverno”, de Aharon Appelfeld. Não poderia haver contraste maior. O primeiro escreveu milhares de páginas sobre a violência que atravessou os EUA nas décadas de 50, 60 e 70; o segundo recorre à concisão alegórica que retrata os horrores da Segunda Guerra Mundial. Por aí vocês avaliam que não bato bem das bolas.

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No último fim de semana, deu para ler dois ótimos romances publicados pela editora Todavia: “Mars Club”, de Rachel Kushner, e “Meu ano de descanso e relaxamento”, de Ottessa Moshfeg. São duas jovens escritoras que provam que a literatura ainda é crucial. “Mars Club” é a história, em primeira pessoa, de uma presidiária que cumpre pena de prisão perpétua. À primeira vista, um cenário que pede um estilo dramático, indignado. Mas não é assim que a banda toca. Kusnher, em boa parte do livro, recorre ao humor macabro. As coisas mais escabrosas são relatadas a partir de uma voz irônica e compassiva. Assim, tristeza e humor caminham de mãos dadas. Ficamos com um retrato sombrio do sistema penitenciário dos EUA. Boa leitura para os que acham que ali é uma imensa Disney.

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Por sua vez, o livro de Ottessa Moshfeg é ambientado numa Nova York familiar aos devoradores de séries de televisão. É o mundo da classe média alta. A protagonista é uma jovem que não precisa se preocupar com questões financeiras. Ela é órfã. Não precisa trabalhar. Imaginem o desafio de escrever algo interessante a respeito de uma figura dessas. Moshfeg encara a briga. Sua protagonista, com a vida ganha, decide passar um ano basicamente dormindo com a ajuda de psicotrópicos. Ela acredita que sairá melhor da jornada. Ao longo do processo, entramos em contato com a ironia mais devastadora. E entendemos, de verdade, que ele tem os seus motivos.

Enfim, leituras contrastantes. Dessas que chacoalham a gente. E isso sempre é bom.

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