Esporte

‘Provocar emoção é o que fica na história’, diz Falcão sobre a seleção de 1982

"Nós perdemos, não foi fracasso e foi sucesso, pelo reconhecimento mundial daquela seleção", disse o ex-volante
Paulo Roberto Falcão
Paulo Roberto Falcão foi jogador e treinador de futebol. Crédito da foto: Felipe Oliveira / EC Bahia / Divulgação (11/3/2012)

 

A decisão do canal SporTV de reprisar nesta quarentena os jogos da Copa do Mundo de 1982 faz o ex-volante da seleção brasileira da época, Paulo Roberto Falcão, se sentir orgulhoso. O Mundial foi disputado na Espanha.

De Porto Alegre, onde mora, o ex-jogador conversou com o Estado por telefone e disse que a paralisação do calendário do futebol pela pandemia do novo coronavírus e a escolha dos canais por resgatar jogos do passado são a oportunidade ideal para os jovens terem contato com uma equipe que encantou o mundo.

Aos 66 anos, o “Rei de Roma” recomenda aos mais garotos que assistam aos jogos para desfrutarem de um futebol bonito, de toque de bola refinado e da técnica de jogadores como Sócrates (morto em 2011), Zico, Júnior e outros mais. Apesar de a derrota para a Itália ter impedido a equipe de Telê Santana de continuar na luta pelo título, para Falcão o reconhecimento mundial pelo legado desse time é um prêmio tão valioso quanto uma taça.

Você gosta de rever jogos antigos em que está em campo?

“Gosto. Mas não por ser aqueles que joguei. Gosto de um bom jogo de futebol. Estamos tendo essas condições de ver jogos antigos. Nesses momentos, com essa confusão toda em que ninguém sai de casa, as televisões estão colocando jogos antigos. Gosto de ver tênis também, bons jogos. Foi muito bom ver de novo o Guga (Gustavo Kuerten) na melhor fase dele, quando foi campeão do Master de 2000, de Roland Garros. Não só futebol, mas pela televisão propiciar grandes jogos, grandes momentos do esporte.”

Dos jogos que fez na sua carreira, existe algum que você sempre gosta de rever?

“De repente as pessoas me mandam alguma situação, com lances que recebo da minha carreira. De vez em quando estou vendo na televisão e aparece alguma coisa. Mas não fico procurando. Gosto de ver. Não tem nada que eu não goste de ver da época que jogava Acho legal que a gente faz comparações da nossa cabeça, sem querer faz comparações com os jogos de hoje. Mas é bom, sim, ver jogos antigos.”

De 1982 para cá, você chegou a mudar várias vezes a sua análise sobre as partidas daquela Copa?

“Não. Acho que tudo foi feito com muito empenho. A gente treinou muito, trabalhou muito, com conscientização dos atletas, com foco de ganhar a Copa. Todos se sacrificando muito. O Sócrates, que fumava, não fumou no período da Copa. Todos se dedicaram demais. Nós treinamos demais na parte física e a parte tática. Eu não mudaria nada, não. O destino quis que a gente não ganhasse. Nem sempre quando não se ganha a gente não vence, né? Acho um equívoco achar que quando se perde é sinônimo de fracasso e quando se ganha é sinônimo de sucesso. Nós perdemos, não foi fracasso e foi sucesso, pelo reconhecimento mundial daquela seleção.”

Para você é surpresa que 38 anos depois a presença dos jogos daquela Copa ainda cativem a curiosidade?

“A seleção de 1982 é reconhecida em todo o lugar. É impressionante. Posso te contar que na Copa de 2002, nós estávamos em Kuala Lumpur (na Malásia) e estava fazendo a credencial para cobrir o último amistoso da seleção antes de ir para o Mundial. Dei meu passaporte para uma senhora, que devia ter uns 45 anos, ela olhou o documento, viu meu nome, olhou para mim, levantou a cabeça e fez uma pergunta assim: ‘Por que vocês não ganharam a Copa?’. Então, isso é uma coisa que permanece. Então quando as pessoas falam de 1982, falam com o maior respeito. A coisa mais importante é que ela provocou emoções. E quando isso acontece, ganhando ou perdendo, você é lembrado. Quantas seleções perderam e não são lembradas? A nossa seleção é lembrada porque simplesmente provocava emoções. Se você vê um filme que foi feito há 40 anos e ainda te provoca emoções, o diretor tem de ser muito feliz. Mesmo um livro feito há 30 anos, que você lê e ainda gosta, o escritor tem de ser feliz. Provocar emoção é o que fica na história.”

Para quem é jovem e não era nascido em 1982, qual jogo daquela seleção brasileira você recomenda?

“Eu recomendo todos os jogos. Era uma seleção que emocionava, jogava bonito, jogava bem e era objetiva. Vejam os cinco jogos. Porque é uma seleção que causa emoções e está marcada até hoje.”

Da Copa de 1982, você ainda conserva amizade com quais jogadores? E dos italianos, tem algum com quem até hoje você tem contato?

“Recentemente, estava em casa e tive a ideia de reunir o pessoal de 1982, que há muito tempo não se reunia. Eu mesmo já tinha reunido em um livro que eu fiz, ‘O time que perdeu a Copa, mas conquistou o mundo’. A última reunião foi para responder a seguinte pergunta: ‘Por que perdemos?’. Cada um tinha uma opinião. No final, eu termino dando a minha opinião e digo: ‘Com todo o respeito, nós não perdemos. O reconhecimento mundial às vezes vale muito mais do que uma taça no armário’. Nós continuamos com essa relação muito boa. Dos italianos, tenho proximidade com o Bruno Conti. Tive mais contato porque jogou comigo na Roma. Tinha também ótima relação com o Gentile, Cabrini e o Tardelli.” (Estadão Conteúdo)

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