Copa do Mundo
Planejamento espanhol venceu
Mais de um milhão de pessoas assistiram ao desfile da seleção após a conquista do bicampeonato sobre a Argentina
Mais de um milhão de torcedores lotaram as ruas de Madri para a festa da seleção espanhola. Os campeões mundiais chegaram ao aeroporto na manhã de ontem (20), encontraram o rei Felipe VI e o primeiro-ministro Pedro Sánchez e desfilaram em um ônibus de dois andares até a praça de Cibeles, onde fica a prefeitura da capital espanhola.
Enquanto milhares de pessoas tomavam as ruas de Madri para receber os campeões, uma certeza já parecia se consolidar: venceu o planejamento.
A Federação Espanhola apostou em um treinador de pouca experiência no futebol profissional, mas profundamente conhecedor das categorias de base. Luis de la Fuente acompanhou praticamente toda uma geração desde a formação até a seleção principal, criando um trabalho contínuo e consistente que culminou no título mundial.
Nomeado em 2013 para comandar a seleção espanhola sub-19, De la Fuente manteve boa parte do grupo ao longo dos anos e participou diretamente do desenvolvimento de jogadores que se tornaram protagonistas da conquista, como Fabián Ruiz, Dani Olmo, Mikel Oyarzabal, Unai Simón e Mikel Merino.
Na decisão, a Espanha encontrou uma Argentina experiente e ainda muito dependente do talento de Lionel Messi. A marcação espanhola funcionou com precisão, neutralizando o principal jogador adversário e limitando drasticamente a produção ofensiva da atual campeã mundial.
Depois das eliminações decepcionantes nas Copas de 2014, 2018 e 2022, muitos especialistas decretaram o fim do tiki-taka, o estilo de jogo que marcou a geração campeã de 2010. Baseado na circulação constante da bola, em passes curtos e no controle absoluto do ritmo da partida, o modelo parecia ultrapassado diante de um futebol cada vez mais físico e vertical. Venceu a Espanha. Venceu o futebol. A safra espanhola, com jogadores excelentes em todas as posições, deve ditar tendências táticas nos próximos anos. Times que valorizam a posse de bola, o toque e o jogo coletivo tendem a se desenvolver e aparecer em todos os cantos do mundo.
A Roja teve uma das campanhas defensivas mais marcantes da história das Copas. Sofreu apenas um gol durante todo o torneio, diante da Bélgica, e terminou todas as demais partidas sem ser vazada. Na final, a atuação foi ainda mais impressionante: a Argentina, mesmo contando com Messi, não conseguiu acertar uma única finalização na direção do gol espanhol.
Identidade
A Espanha é um país formado por regiões que, embora unidas sob uma mesma bandeira, preservam identidades próprias, refletidas na cultura, nos costumes e até nos sotaques. E isso se refletiu na festa dos jogadores. Alguns se vestiram com bandeiras de suas regiões, como Catalunha, Andaluzia e Galícia. Os rituais pessoais também fizeram parte da comemoração. Lamine Yamal celebrou o título ao lado do simpático irmão Keyne Yamal, de 4 anos, que acabou se tornando um dos torcedores mais carismáticos da equipe durante a Copa.
O meio-campista Pedri cobrou um pênalti para o pai, Fernando, defender, como faz em todas as suas conquistas. Já Nico Williams entregou a medalha de campeão do mundo à mãe, que havia atravessado o deserto do Saara para proteger a família.
As princesas Leonor e Infanta Sofía protagonizaram um dos momentos mais simbólicos da festa ao carregarem a taça e repetirem uma cena de 16 anos atrás, quando a Espanha conquistou sua primeira Copa do Mundo e elas, com apenas 4 e 3 anos, brincavam com o troféu. O rei Felipe VI e a rainha Letizia também desceram ao gramado para comemorar ao lado dos jogadores.
Ainda faltam quatro anos, uma eternidade no futebol. Mesmo assim, é difícil olhar para a Espanha e não enxergar a principal candidata ao campeonato em 2030, quando será uma das sedes do torneio.
Lamine Yamal, que não fez uma Copa tão exuberante agora, mas segue sendo um talento geracional incontestável, chegará ao próximo torneio com apenas 23 anos. A mesma idade terá o zagueiro Pau Cubarsí, que coroou a solidez defensiva da equipe ao vencer o prêmio da Fifa de Melhor Jogador Jovem da Copa de 2026.
O goleiro Unai Simón terá 33 anos. Já o capitão Rodri chegará aos 34 e terá de lutar para manter seu espaço na equipe.
Histórico
A conquista também entrou para a história por dois motivos. A Espanha tornou-se o primeiro país a conquistar duas Copas do Mundo masculinas no século 21 e passou a ser a primeira nação a reunir, simultaneamente, os títulos mundiais do futebol masculino e feminino.
A seleção feminina havia conquistado a Copa do Mundo de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, consolidando uma era de protagonismo espanhol no futebol internacional.